O Corinthians pagou uma série de produtos e serviços para uso pessoal durante a gestão do ex-presidente Duilio Monteiro Alves, que comandou o clube entre 2021 e 2023.
Os gastos são comprovados por notas e cupons fiscais aos quais a reportagem do ge teve acesso. O ex-dirigente nega.
A lista de compras é variada, tendo cerveja, cigarro e até mesmo remédios para disfunção erétil.
As contas de Duilio em 2023 foram aprovadas pelo Conselho Fiscal e pelo Conselho de Orientação, mas com ressalvas. Em seguida, o Conselho Deliberativo ratificou a aprovação.
Os gastos para fins pessoais constam em relatório de despesas e declaração do Corinthians, com recibos de 26 de setembro de 2023 a 31 de outubro do mesmo ano. Toda despesa apresentada na planilha é justificada por uma nota ou cupom fiscal em anexo. O ge atestou a veracidade deles no site da Secretaria da Fazenda.
O documento é assinado por Denilson Grillo, conhecido como Carioca, que foi motorista de Duilio enquanto ele era presidente. O ex-funcionário do clube diz não reconhecer a planilha nem a assinatura.
A reportagem do ge, porém, encontrou a mesma assinatura em documento apresentado por Denilson na Junta Comercial de São Paulo para abertura de empresa.
A maior parte dos comprovantes anexados ao relatório não tem o comprador identificado. Contudo, há notas e cupons fiscais com nome e CPF de Duilio e Denilson, além dos endereços residenciais deles.
Ao longo dos 36 dias de prestação de contas, foram 176 compras declaradas, totalizando R$ 86.524,62.
O documento informa que R$ 80 mil foram adiantados à presidência. O valor foi repassado em espécie, em três vezes:
R$ 30 mil em 2 de outubro;
R$ 20 mil no dia 16;
R$ 30 mil no dia 30.
Desta forma, o funcionário teria direito a um reembolso de R$ 6.524,62.
Gastos com alimentação
A maior parte dos pagamentos declarados no relatório é referente a alimentação e compras em mercados, totalizando R$ 57,8 mil.
O principal fornecedor nesta categoria foi “Oliveira Minimercado”, que faturou R$ 32.580 em sete notas fiscais diferentes entre os dias 18 e 31 de outubro, todas com descrição de serviço de buffet.
O estabelecimento está registrado num endereço no Jardim Ângela, extremo Sul de São Paulo, a 35km da sede do Corinthians. O ge esteve no local e falou com os moradores do imóvel, que negaram a existência de qualquer estabelecimento comercial ali nos últimos anos.
Nove dias antes da emissão da primeira nota, a empresa tinha outra atividade econômica e nome: Oliveira Obras de Alvenaria. Na época, também foram trocados os sócios na Junta Comercial: saiu Geovana Batista de Oliveira e entrou Alexsander Marques Canudo.
As notas do “Oliveira Minimercado” apresentadas ao Corinthians têm número de série sequenciais (5, 6, 8, 9, 11, 12, 13).
O “Oba Hortifruti” foi o estabelecimento em que mais compras foram realizadas no período: 38. No local foram adquiridos produtos como cerveja, picanha, sorvete, além de frutas e legumes diversos.
Em outros supermercados houve compras de itens de limpeza, como água sanitária, amaciante de roupas e detergentes.
Também há comprovantes de gastos com lanches em redes “fast food”, pizzas, peixes, doces e isqueiros.
Farmácias, salão de beleza e presentes
O relatório apresenta gastos que não aparentam ter qualquer relação com o Corinthians. Em algumas destas notas Duilio é identificado como comprador, seja pelo nome ou pelo CPF. Alguns exemplos são:
5/10/2023 – Dois aparelhos de barbear da marca BaByliss – R$ 3.000;
9/10/2023 – Kit para caixa acoplada de vaso sanitário – R$ 219;
24/10/2023 – Serviço de barbearia, cabeleireiro, manicure, pedicure e congêneres – R$ 171;
31/10/2023 – Serviço de lavanderia – R$ 505.
Também há recibos com o nome ou o documento de Denilson Grillo, tais como:
9/10/2023 – Três flores, acompanhadas de arranjo, cartão e borboleta de ornamento – R$ 737,80
9/10/2023 – Remédio – R$ 540,09
18/10/2023 – Remédios e chicletes – R$ 159,02
Em três compras de farmácia aparecem medicamentos para disfunção erétil: Tadalafila (duas vezes) e Cialis. O segundo foi comprado em 3 de outubro, numa farmácia em Fortaleza. No mesmo dia o Corinthians jogou na capital cearense pela semifinal da Copa Sul-Americana.
Ainda há recibos de compra de ração animal, uma bijuteria feminina e um cachorro de pelúcia.
O relatório também conta com dois recibos de prestação de serviços sem valor fiscal, nem especificação do trabalho executado. Um tem o valor de R$ 3.350 a Maria Aparecida de Souza. O outro é de R$ 2 mil a Sidney Balbino dos Santos, que entre 2015 e 2017 foi assessor parlamentar de Andrés Sanchez, ex-presidente do Corinthians.
Curiosamente, Sidney também aparece identificado em outro cupom fiscal, mas neste como comprador (com CPF declarado) de uma calça e uma camisa social no dia 30 de outubro, no valor de R$ 339,98.
Outros pagamentos
O relatório apresenta um gasto de R$ 13,8 mil com transporte, o que inclui combustível, lavagem automotiva, táxi, estacionamento, entre outros serviços.
A nota fiscal de maior valor neste segmento foi referente à manutenção de um veículo, de R$ 9.470.
Em relação aos postos de combustível, há três cupons fiscais de um mesmo dia, no mesmo local. Em 18 de outubro, houve compra de gasolina às 8h19, às 8h22 e às 15h36. No total, foram 15 compras neste estabelecimento declaradas no relatório.
A reportagem do ge foi ao posto e conversou com o proprietário, que disse não ter qualquer convênio com o clube nem conhecer membros da diretoria alvinegra.
Compras de Andrés Sanchez na mira
Duilio não é o único com gastos pessoais utilizando o dinheiro do Corinthians. O Conselho Deliberativo informou na última segunda-feira que dará andamento aos pedidos de investigação sobre o uso de cartão corporativo pelo ex-presidente Andrés Sanchez em 2020.
O cartão foi usado em duas ocasiões sem qualquer relação com o Timão. Uma delas no valor de R$ 9.416 durante o réveillon em Tibau do Sul, no Rio Grande do Norte. A outra em uma compra de R$ 6.980,40 em Fernando de Noronha.
O que dizem os envolvidos
A reportagem do ge procurou Duilio Monteiro Alves desde a semana passada. Apenas na última segunda-feira à noite o dirigente se manifestou por nota. Leia abaixo:
“Não tenho qualquer receio sobre despesas da Presidência à época em que tive a honra de presidir o Corinthians – numa gestão que reconhecidamente controlou gastos e elevou o faturamento do clube para além da marca do R$ 1 bilhão.
Porém, diante da grosseira manipulação de supostas planilhas e faturas da minha gestão, divulgadas em perfis anônimos com objetivo político de assassinar reputações nas redes sociais, requeri ao clube acesso a tais documentos, a fim de que pudesse checar sua veracidade.
Infelizmente meu pedido não pode ser atendido e, portanto, em razão dessas flagrantes manipulações de documentos, só vou me manifestar quando o clube franquear acesso a eles, pois aí terei dados oficiais para rebater as mentiras.
Até lá, porém, tomarei medidas criminais contra quem deturpa informações e também contra quem divulga conteúdo falso contra mim”.
Já nesta terça-feira, após a publicação da reportagem, o ex-presidente emitiu uma outra nota oficial:
“Informo que na presente data apresentarei notícia-crime na Delegacia de Repressão aos Delitos de Intolerância Esportiva (DRADE/DOPE) para ser incluída na investigação em andamento (Inquérito Policial nº 2326769-37.2024.010315 – Processo Digital n°: 1542744-43.2024.8.26.0050 – 2025/001214), denunciando a circulação de documentos falsificados e manipulados, que estão sendo atribuídos à minha gestão no Sport Club Corinthians Paulista.
Numa rápida averiguação já detectamos uma fatura de cartão de crédito falsa e 2 documentos incluídos na suposta planilha identificados como inexistentes em apuração realizada pelo clube junto a diretoria financeira da gestão Augusto Melo, em denúncia anterior.
Também já formalizei um pedido ao Conselho Deliberativo para que sejam apuradas todas as circunstâncias que envolvem este episódio, tanto em relação à veracidade dos documentos e à tentativa de vinculá-los à minha pessoa, quanto à conduta de todos os envolvidos.
É evidente que essas ações possuem motivações políticas claras, visando comprometer minha imagem, reputação e a própria estabilidade do Sport Club Corinthians Paulista.
Em relação à matéria veiculada pelo portal ge.globo, reafirmo que não reconheço a veracidade da planilha divulgada. Nunca tive acesso direto a esse documento, apenas o vi através de imagens compartilhadas em redes sociais e por terceiros. Durante toda a minha gestão, jamais recebi ou aprovei pagamentos naquele formato, muito menos fui informado sobre os supostos pagamentos que agora tentam me vincular.
Reitero que:
Não há nenhuma assinatura minha, carimbo oficial ou qualquer elemento que comprove meu conhecimento dos valores listados;
Não há assinatura de recebimento dos supostos valores reembolsados, o que contraria os procedimentos normais de prestação de contas do clube.
O próprio Corinthians, como já foi noticiado, registrou um Boletim de Ocorrência relatando o desaparecimento de faturas e documentos fiscais. Isso reforça a possibilidade de adulterações e uso indevido de informações internas.
Cumpre registrar que sou o maior interessado na apuração completa e transparente dos fatos. Solicitei formalmente ao clube acesso aos documentos originais e adotarei as medidas judiciais cabíveis contra os responsáveis pela criação e disseminação desse material falso.
Por fim, reafirmo meu compromisso inabalável com a ética, a lisura e a transparência, princípios que sempre nortearam minha atuação no clube. Tenho absoluta tranquilidade quanto à correção de minha gestão e permaneço à disposição das autoridades e da instituição para todos os esclarecimentos necessários, prestando total colaboração para a rápida elucidação dos fatos.”
Já Wesley Melo, diretor financeiro no mandato de Duilio Monteiro Alves, disse nunca ter visto tal relatório, nem saber do que se trata.
João de Oliveira, presidente do Conselho Fiscal na época, afirmou que não reconhece o documento.
O Conselho Fiscal aprovou as contas de 2023 com ressalvas.
O Corinthians ainda não se manifestou sobre o caso. O clube, porém, declara ter registrado um Boletim de Ocorrência no último sábado alegando o sumiço de faturas e documentos fiscais.
Fonte: GE