Os altos valores pagos por prefeituras a artistas consagrados voltaram ao centro do debate após a divulgação de contratos firmados com o cantor Zezé di Camargo. Entre 2024 e 2025, o sertanejo recebeu ao menos R$ 2,21 milhões em apresentações financiadas com recursos públicos, incluindo cidades de pequeno porte — uma delas com menos de 3 mil habitantes.
O caso ganhou ainda mais repercussão após Zezé romper relações com o SBT, em meio a críticas ao presidente Lula, mas aceitar contratos custeados com verbas federais. Em São José do Egito, no sertão de Pernambuco, a prefeitura contratou o cantor por R$ 500 mil para um show marcado para janeiro de 2026. O pagamento será feito com recursos federais, provenientes do governo Lula.
Mais do que a polêmica política, os números chamam atenção pelo impacto nos cofres municipais. Em Teresina de Goiás, cidade com apenas 2.701 moradores, segundo o IBGE, a prefeitura desembolsou R$ 380 mil para o show de aniversário do município. O valor equivale a cerca de R$ 141 por habitante.
O montante gasto com o cachê representa mais da metade do total investido no Fundo Municipal de Assistência Social da cidade nos últimos seis meses. De acordo com dados do Portal da Transparência, o fundo recebeu R$ 568.124,15 no período.
Situação semelhante ocorreu em Nazário (GO), município com 8.189 habitantes, onde o cachê estimado para uma apresentação durante o rodeio local foi de R$ 400 mil. O valor se aproxima de todo o orçamento destinado ao Fundo Municipal de Meio Ambiente no último semestre, que somou R$ 508.448,11.
No estado de São Paulo, Ribeirão Branco, com 18.627 moradores, pagou R$ 480 mil pela apresentação. Já em Inhapim (MG), com população de 22.692 habitantes, o contrato chegou a R$ 454,5 mil.
O maior cachê registrado foi pago pela prefeitura de Jales (SP), cidade com 48.776 moradores, que desembolsou R$ 500 mil para o show do artista.
Todos os contratos foram firmados sem licitação, com base na inexigibilidade prevista em lei para artistas de renome nacional. Apesar da legalidade, os dados escancaram o peso desses cachês no orçamento de cidades pequenas, onde o custo de um único espetáculo se aproxima — ou até supera — investimentos em áreas essenciais como assistência social e meio ambiente.
Fonte: OGLOBO