Três décadas após a morte dos integrantes dos Mamonas Assassinas, Hildebrando Alves, pai de Dinho, voltou a falar publicamente sobre o impacto da tragédia e o legado deixado pela banda. Depois da exumação dos corpos realizada nesta segunda-feira, ele afirmou que a fé, o apoio dos fãs e a coragem foram essenciais para enfrentar os anos que se seguiram ao acidente aéreo de 1996.
Em entrevista ao GLOBO, Hildebrando declarou que, ao longo dos 30 anos, a família aprendeu a compreender a morte como parte da vida e que o sofrimento não traria o filho de volta.
— Nesses 30 anos, compreendemos que a vida é assim, vamos todos morrer um dia. Baixar a cabeça não resolve nada. Se eu tivesse certeza que eles, ou mesmo meu filho, voltariam se eu chorasse, estaria chorando até hoje. Mas não volta. É uma coisa que vem de Deus, e contra Deus não há argumentos. É aceitar e agradecer por cada dia de vida — afirmou.
Ele também relembrou as inspirações por trás de sucessos do grupo. Segundo o pai do cantor, o cotidiano simples foi base para as composições de Dinho.
— A inspiração do Dinho sempre foi a fazenda em que olhava o gado; para o Mundo Animal, eu acho que se baseou nisso. Pelados em Santos foi uma brincadeira dele com um amigo. Já Robocop Gay foi porque ele sempre foi contra a discriminação de gays. Ele dizia para mim: “eles falam porque não têm consciência da vida, gay também é gente”. Por isso colocou essa frase na música. Agradou porque ele fez do jeito certo — declarou.
Para Hildebrando, a autenticidade explica por que, passados 30 anos, não surgiu outro grupo semelhante.
— Nesses 30 anos, não apareceu ninguém igual. Ele não programou nada de fazer música para agradar, nem A, nem B. Ele fez uma música pensando nele, e só depois para todo mundo. É um legado que ele deixou — disse.
A exumação faz parte da criação de um memorial vivo em homenagem aos músicos. A inauguração do espaço, aberto ao público e gratuito, está prevista para esta sexta-feira (27), às vésperas dos 30 anos do acidente.
Após o procedimento, os corpos serão cremados e parte das cinzas será transformada em adubo para o plantio de cinco árvores no BioParque Cemitério de Guarulhos, cidade onde os integrantes moravam. A iniciativa resulta de parceria entre as famílias e o cemitério. As sepulturas originais serão preservadas e continuarão abertas para visitação gratuita.
O espaço contará com totens, atividades interativas, QR Codes com fotos, vídeos e relatos sobre os músicos e um “cantinho Mamonas”. As cinzas serão colocadas em urnas biodegradáveis junto às sementes escolhidas pelas famílias, e o crescimento das árvores poderá ser acompanhado por plataforma digital.
Os Mamonas Assassinas estavam no auge da carreira quando morreram em 2 de março de 1996. Após um show em Brasília, o avião que transportava o grupo colidiu com a Serra da Cantareira durante a aproximação para pouso em Guarulhos, matando todos os ocupantes e provocando grande comoção nacional.
Fonte: OGLOBO