Uma operação do Ministério Público de São Paulo, realizada em conjunto com a Polícia Federal e a Corregedoria da Polícia Civil, prendeu nove pessoas nesta quinta-feira (5) suspeitas de integrar um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro dentro da Polícia Civil paulista.
Entre os detidos estão quatro policiais civis: os investigadores Roldnei Eduardo dos Reis Baptista, da 1ª Delegacia de Combate à Corrupção, e Rogério Coichev Teixeira, do Serviço Aerotático; o escrivão Ciro Borges Magalhães Ferraz; e o delegado João Eduardo da Silva, ambos lotados na Delegacia do Jabaquara. Os agentes foram encaminhados à Corregedoria da corporação.
Também foi presa a doleira Meire Poza, conhecida por ter sido alvo da Operação Lava Jato. Segundo os investigadores, ela seria responsável pela contabilidade do grupo e pela movimentação de recursos ilícitos. Poza foi levada para a sede da Polícia Federal.
Outros quatro suspeitos também foram detidos: o advogado Antônio Carlos Ubaldo Júnior, que atuou entre 2023 e 2024 como assistente parlamentar comissionado de um deputado estadual; o advogado Marlon Antônio Fontana; além de Cléber Azevedo dos Santos e Robson Martins de Souza.
De acordo com o Ministério Público, o grupo teria transformado delegacias especializadas em centros de negociação para garantir a impunidade de investigados. A decisão judicial, assinada pelo juiz Paulo Fernando Deroma de Mello, autorizou prisões preventivas, mandados de busca e apreensão e o bloqueio de bens dos suspeitos.
As investigações apontam que policiais solicitavam relatórios de inteligência financeira (RIFs) para identificar possíveis alvos de cobrança de propina. Após obter os dados, eles enviavam intimações e exigiam pagamentos para interromper investigações.
Também foram identificadas tentativas de destruição de provas. Em um dos casos relatados, investigados teriam conseguido acessar dependências do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC) para substituir um disco rígido apreendido por outro sem informações.
O esquema também envolveria pagamento de propina no hangar do Serviço Aerotático da Polícia Civil, no Campo de Marte, além de episódios de extorsão relacionados ao 16º Distrito Policial, na Vila Clementino. Em um dos casos citados pelo Ministério Público, policiais teriam exigido R$ 5 milhões para interromper um inquérito.
Segundo os investigadores, o grupo utilizava empresas de fachada e operações simuladas de importação para ocultar a origem do dinheiro. Uma das estratégias identificadas foi a conversão de dinheiro em espécie em créditos de vales-refeição por meio de estabelecimentos fictícios.
O esquema teria ligação com doleiros envolvidos em grandes operações anteriores, como Leonardo Meirelles e Meire Poza, apontados como operadores financeiros.
A ação desta quinta-feira é desdobramento da Operação Recidere, deflagrada em 2023 para investigar um esquema bilionário de envio de dinheiro ilegal ao exterior. Na ocasião, investigadores identificaram movimentações de cerca de R$ 4 bilhões em dois anos por meio de contas ligadas a empresas de fachada.
A análise de celulares apreendidos revelou posteriormente indícios de corrupção envolvendo policiais civis que recebiam propina para interromper investigações ou deflagrar operações para, depois, cobrar dinheiro dos investigados.
Ao todo, a Justiça decretou a prisão de 11 investigados e autorizou 23 mandados de busca e apreensão em residências, escritórios de advocacia e nas sedes de delegacias onde atuavam os policiais investigados, incluindo unidades do Departamento de Investigações Criminais (Deic), do DPPC e do 16º Distrito Policial.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou que a Corregedoria da Polícia Civil participa da operação e afirmou que a instituição não compactua com desvios de conduta de seus integrantes e adotará todas as medidas legais e disciplinares caso as irregularidades sejam confirmadas.
Fonte: G1