De “Bessias” ao STF: indicado de Lula construiu ponte com evangélicos e aliados políticos

por Redação

Indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, chega à disputa pela Corte após uma trajetória marcada por articulações políticas, aproximação com lideranças do PT e forte presença no diálogo entre o governo e setores evangélicos.

Aos 46 anos, Messias poderá permanecer no STF até 2055, quando atingirá a idade de aposentadoria compulsória. Pernambucano, ele é formado em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco e possui mestrado pela Universidade de Brasília (UnB). Servidor concursado da AGU desde 2007, atua como procurador da Fazenda Nacional.

A ascensão política de Messias começou a ganhar força durante os governos petistas. Ele se aproximou da cúpula do PT quando assumiu a Secretaria de Regulação do Ministério da Educação, então comandado por Aloizio Mercadante, considerado um de seus principais padrinhos políticos.

Em 2015, foi nomeado pela ex-presidente Dilma Rousseff para chefiar a Subchefia de Assuntos Jurídicos da Casa Civil. Mas foi no ano seguinte que seu nome ganhou repercussão nacional, após a divulgação de um áudio interceptado pelo então juiz Sergio Moro durante a Operação Lava Jato.

Na gravação, Dilma afirma que enviaria por meio de “Bessias” um termo de posse para Lula assumir a Casa Civil. A conversa gerou forte repercussão política e levou Moro a interpretar que haveria tentativa de garantir foro privilegiado ao petista. Desde então, Jorge Messias passou anos sendo chamado publicamente apenas pelo apelido “Bessias”.

Mesmo após o episódio, Messias manteve influência nos bastidores do PT. Durante o governo Jair Bolsonaro, trabalhou no gabinete do senador Jaques Wagner (PT-BA), atual líder do governo no Senado. Ao mesmo tempo, também construiu relações fora da esquerda, incluindo proximidade com o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro e hoje apoiador da indicação ao STF.

Diácono da Igreja Batista de Brasília, Messias se consolidou como um dos principais interlocutores de Lula com o eleitorado evangélico, segmento historicamente resistente ao presidente e às pautas da esquerda. O ministro participou durante anos da Marcha Para Jesus representando o governo e costuma frequentar reuniões da bancada evangélica no Congresso.

No fim do ano passado, participou de um culto no Palácio do Planalto ao lado de Lula e do bispo Samuel Ferreira, da Assembleia de Deus Madureira. O nome de Messias também recebeu sinais positivos de lideranças evangélicas alinhadas ao bolsonarismo, como o pastor Silas Malafaia e o ministro do STF André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro.

Apesar disso, a indicação enfrenta resistência política. A bancada do PL se posicionou contra a escolha, embora aliados de Messias apostem em votos favoráveis de parlamentares da oposição, já que a votação no Senado é secreta.

Nos bastidores, a indicação também provocou tensão entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). O senador defendia o nome do ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSB-MG) para a vaga e sinalizou que poderia acelerar a tramitação da indicação antes de o governo consolidar apoio suficiente.

Para evitar derrota, Lula retardou o envio oficial da mensagem ao Senado enquanto articulava votos. Com a formalização da indicação, a expectativa é que a análise aconteça na próxima quinta-feira.

À frente da AGU, Jorge Messias ampliou sua influência dentro do governo e junto ao STF, atuando como interlocutor do Planalto em momentos de crise institucional, incluindo episódios envolvendo sanções do governo Donald Trump contra ministros da Corte.

O nome dele já havia sido cogitado para o Supremo em 2023, na vaga aberta pela aposentadoria de Rosa Weber. Na ocasião, porém, Lula escolheu Flávio Dino, decisão que gerou desgaste interno e uma rivalidade política entre os dois ministros que permanece até hoje.

Fonte: OGLOBO

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