Irã x EUA Ataque ao Irã reacende temor nuclear e especialistas veem risco global crescente Redação2 de março de 202608 visualizações “O Irã nunca terá uma arma nuclear.” A frase foi repetida três vezes pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em discurso neste sábado (28), após a ofensiva contra o país persa. A declaração, enfática, ocorre em meio a um cenário que especialistas classificam como cada vez mais preocupante no campo nuclear. O programa nuclear iraniano teve início em 1957, com apoio dos próprios Estados Unidos, durante a ditadura do xá Mohammad Reza Pahlavi, antes da revolução islâmica de 1979. Oficialmente, o objetivo sempre foi a produção de energia. O governo iraniano mantém até hoje a versão de que o programa tem fins pacíficos. Estados Unidos e Israel, no entanto, contestam essa narrativa. Em junho do ano passado, os dois países anunciaram ter destruído o programa nuclear iraniano na operação “Martelo da Meia-noite”, que atingiu bases com plantas de enriquecimento de urânio — material que pode ser utilizado na fabricação de armas nucleares. Especialistas, porém, avaliam que a eliminação não foi completa. “Provavelmente, as plantas de enriquecimento do Irã foram realmente destruídas. Mas destruir as plantas não significa destruir o programa, porque os técnicos, os cientistas envolvidos continuam vivos e com know-how”, explica o físico e engenheiro nuclear Marco Antônio Saraiva Marzo. Ele destaca ainda que o Irã possuía 408 quilos de urânio, que poderiam ter sido escondidos ou transportados em pequenos contêineres. Para Matias Spektor, professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas (SP), os ataques retardaram o avanço nuclear iraniano, mas não o eliminaram. “Se a situação continuar como está, daqui a alguns anos eles podem voltar a desenvolver instalações nucleares, especialmente de enriquecimento”, afirma. As negociações entre Irã e Estados Unidos sobre o programa nuclear ocorriam desde abril do ano passado, mas não avançaram. Segundo Spektor, Washington exigiu o fim completo do programa, algo inaceitável para Teerã. “O Irã interpreta que este programa simboliza a capacidade que o país tem de ter uma vida autônoma, independentemente da oposição que recebe dos Estados Unidos há quase 50 anos e da oposição sistemática de Israel”, explica. Atualmente, o mundo possui nove potências nucleares, incluindo Estados Unidos e Israel, que participaram da ofensiva. O principal aliado internacional do Irã é a Rússia, mas, segundo Spektor, Moscou não tem condições materiais de oferecer apoio ativo devido à guerra na Ucrânia. A China já sinalizou que não pretende se envolver. Países europeus, Índia, Paquistão e Coreia do Norte também não demonstraram disposição de apoiar o regime iraniano. O Irã, contudo, conta com grupos aliados no Oriente Médio. “Hezbollah, Hamas e os Huthis, no Iêmen, podem efetivamente fazer ataques em seu nome. São grupos enfraquecidos, mas que eventualmente podem recorrer a táticas terroristas na região e fora dela”, afirma o professor Tanguy Baghdadi. Nenhum desses grupos, porém, possui armas nucleares. O cenário global preocupa. “A situação mundial na questão do risco nuclear é muito sombria”, avalia Marco Antônio Marzo. Spektor aponta que países como Coreia do Sul, Alemanha, Polônia e Japão discutem internamente a possibilidade de desenvolver artefatos nucleares, seja por proteção, seja por influência geopolítica. Além disso, todos os países nucleares estão modernizando seus arsenais, a China amplia o seu estoque e, na última semana, expirou o último tratado de redução de armas nucleares estratégicas entre Rússia e Estados Unidos. “Hoje não existe nenhum tratado em vigor de redução de armas nucleares no mundo. O desarmamento nuclear está praticamente paralisado há décadas”, alerta Marzo. Questionados sobre a duração de uma eventual guerra nuclear, os especialistas são categóricos quanto ao risco extremo. “Uma guerra total envolvendo Estados Unidos, Rússia e China poderia levar à destruição do mundo”, afirma Marco Antônio. Spektor complementa que, diante de um ataque, haveria retaliação imediata, seguida de contra-ataques e escalada, podendo resultar em aniquilação mútua ou emissão de radiação suficiente para inviabilizar a vida na Terra. “O lance com a guerra nuclear é que a gente nunca viveu uma, e é melhor assegurar que a gente nunca viverá uma”, conclui. Fonte: FANTÁSTICO