Uma operação logística de alta complexidade interrompeu a Rodovia Presidente Dutra para o transporte de um transformador de 540 toneladas fabricado em Guarulhos, na Grande São Paulo. O equipamento integra uma encomenda de 14 unidades destinadas ao projeto Neom, na Arábia Saudita — iniciativa que prevê a construção de uma cidade linear de 170 quilômetros movida a energia renovável.
Com 11 metros de comprimento e seis de largura, o transformador exige manuseio delicado, apesar do porte robusto. Técnicos classificam o processo como um “trabalho de relojoaria”, devido à sensibilidade interna do equipamento. Segundo Alexandre Malveiro, diretor de Negócios e Transformadores da Hitachi, nesta fase inicial o objetivo não é fornecer energia a residências, mas estruturar a infraestrutura da futura cidade. A potência de um conjunto dessas unidades poderia abastecer duas cidades do porte de São Paulo ou uma Nova York inteira.
Para transportar a carga, o peso foi distribuído em uma supercarreta com 380 pneus e mais de 50 eixos, puxada por três cavalos mecânicos. O conjunto chegou a 126 metros de comprimento e ultrapassou os 10 metros de largura, exigindo ajustes antes da liberação pela Polícia Rodoviária Federal (PRF). A operação envolveu cerca de 50 profissionais e demandou um ano e meio de planejamento.
Logo no início do trajeto, obstáculos urbanos como galhos de árvores e placas de sinalização precisaram ser removidos. A travessia pela Dutra foi programada para a madrugada, a fim de minimizar impactos aos cerca de 350 mil veículos que utilizam a rodovia diariamente. Ainda assim, imprevistos alteraram o cronograma.
Um dos cavalos mecânicos apresentou falha antes do acesso à rodovia, forçando a suspensão temporária da operação. A supercarreta também não pode circular aos fins de semana, devido ao maior fluxo de veículos. O custo do pedágio ao longo do percurso soma R$ 4.500.
A passagem por pontes e viadutos, as chamadas “obras de arte”, foi monitorada por engenheiros, que mediram as estruturas antes e depois da travessia para assegurar a integridade.
Um dos trechos mais críticos foi a Serra das Araras, no Rio de Janeiro. A logística optou pelo Porto de Itaguaí (RJ) em vez do Porto de Santos (SP), que opera próximo ao limite de capacidade e enfrenta restrições de pátio. Na descida da serra, o conjunto, com peso bruto total de 840 toneladas, avança a apenas 5 km/h. “Aqui é atenção no retrovisor e no rádio”, relatou o motorista conhecido como Macarrão, destacando a comunicação constante por rádio entre as equipes.
O impacto no trânsito foi inevitável. Motoristas relataram esperas superiores a uma hora durante bloqueios temporários. “Incomoda muito”, afirmou um condutor parado. Uma motoboy disse que estava há mais de uma hora retida e tinha compromissos a cumprir.
O cronograma também sofreu atrasos. A previsão inicial era transportar três transformadores em dois meses, mas fatores estruturais e climáticos ampliaram o prazo total em três meses. A primeira carreta levou 75 dias, a segunda 60 e a terceira 45 dias para completar o trajeto.
Para o professor de Logística da UFRJ Lino Guimarães Marujo, o episódio evidencia a necessidade de investimentos em ferrovias e pátios de carga. “Precisamos ter um modo de transporte mais sustentável e mais barato para o deslocamento dessas cargas”, defendeu.
No porto, o desafio final é o embarque seguro. O navio utiliza sistema de lastro — preenchendo tanques com água — para compensar o peso durante o içamento do transformador, evitando risco de inclinação excessiva.
Ainda restam 11 unidades a serem entregues. O sucesso das exportações gera empregos e tributos no Brasil, mas as dificuldades logísticas já levaram compradores a reduzir a exigência de três para dois transformadores por navio, na tentativa de evitar novos atrasos. Enquanto a Arábia Saudita acelera seu projeto rumo a 2030, a infraestrutura brasileira segue pressionada a acompanhar o ritmo.
Fonte: FANTÁSTICO