caso Master Caso Master aprofunda crise no STF e expõe tensão entre ministros após suspeitas envolvendo Moraes Redação9 de março de 202603 visualizações Os novos desdobramentos do caso Banco Master ampliaram a crise interna no Supremo Tribunal Federal (STF) e elevaram o nível de tensão entre ministros da Corte. Integrantes do tribunal ouvidos reservadamente afirmam que o episódio envolvendo o ministro Alexandre de Moraes é considerado ainda mais grave do que a controvérsia que atingiu anteriormente o ministro Dias Toffoli. Segundo relatos feitos ao jornal Valor, a situação colocou o Supremo no centro de um debate sobre a conduta individual de magistrados, algo considerado incomum em comparação às críticas tradicionais direcionadas ao tribunal, que geralmente se concentram em decisões judiciais. No atual cenário, Moraes passou a ser alvo de questionamentos após a divulgação de mensagens atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, enviadas ao ministro pouco antes da primeira prisão do empresário, em novembro de 2025. O magistrado nega ter recebido as mensagens. O caso também reacendeu o debate interno sobre o papel de outros ministros. Dias Toffoli já vinha sendo criticado por sua atuação quando era relator das investigações sobre o Banco Master, especialmente após limitar o acesso da Polícia Federal a provas obtidas durante a Operação Compliance Zero. Com a mudança na relatoria, o ministro André Mendonça assumiu o comando das apurações e determinou medidas que restabeleceram o que chamou de “fluxo ordinário” das investigações, devolvendo aos investigadores dados anteriormente restritos. A decisão é vista por alguns colegas como um fator que fortaleceu sua posição dentro da Corte. A atuação de Mendonça, no entanto, também divide opiniões no Supremo. Uma ala considera que o ministro ampliou sua influência após assumir o caso e por também relatar investigações relevantes, como o inquérito que apura desvios associativos envolvendo aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Além disso, Mendonça deve assumir a vice-presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nas eleições deste ano, o que também aumenta seu protagonismo no cenário institucional. Outra ala do STF, contudo, minimiza esse suposto fortalecimento e avalia que Mendonça não possui a mesma capacidade de articulação política ou influência interna de outros integrantes da Corte. O clima de tensão também envolve o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Na sexta-feira (6), ele respondeu a críticas feitas por Mendonça após solicitar mais prazo para se manifestar sobre a prisão de Daniel Vorcaro e de outros investigados da Operação Compliance Zero. Gonet afirmou que a manifestação do Ministério Público não pode ser tratada como “formalidade vazia” e citou o impacto de medidas cautelares em referência à tentativa de suicídio de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”. O episódio ocorreu durante a operação e terminou com a confirmação da morte do investigado no mesmo dia. No centro da nova controvérsia estão mensagens divulgadas em reportagem do jornal O Globo, assinada pela jornalista Malu Gaspar. Segundo a publicação, registros extraídos do celular de Vorcaro por perícia da Polícia Federal indicariam que o banqueiro enviou mensagens ao ministro Alexandre de Moraes no dia em que foi preso pela primeira vez. A comunicação do STF afirmou em nota que Moraes nega ter recebido qualquer mensagem do banqueiro naquele dia. A advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, também negou o recebimento das mensagens. Apesar das negativas, integrantes da Corte avaliam que o episódio agravou a crise de imagem do tribunal. Um interlocutor de um ministro afirmou que a situação envolvendo Moraes é considerada mais delicada do que a que atingiu Toffoli, porque as relações atribuídas ao segundo ocorreriam em um período em que a atuação do Banco Master ainda era considerada legal. Já as supostas mensagens envolvendo Moraes sugeririam uma possível interlocução com Vorcaro em meio a investigações em curso, hipótese que amplia a repercussão do caso. Nos bastidores do Supremo, ministros descrevem o ambiente interno como deteriorado. Um deles afirmou que o país vive um cenário “totalmente caótico” e que o tribunal, que por anos foi visto como o poder mais estável da República, também passou a enfrentar forte desgaste institucional. Outro magistrado descreveu o momento atual como de “clima péssimo” dentro da Corte, avaliando que a crise pode ter reflexos no cenário político nacional e nas eleições deste ano, que ele considera potencialmente “violentas e radicalizadas”. Para o professor Rubens Glezer, da Fundação Getulio Vargas (FGV Direito SP), o episódio representa a pior crise de reputação já enfrentada pelo Supremo Tribunal Federal. Segundo o especialista, diferentemente de crises anteriores — centradas em decisões judiciais —, agora as suspeitas recaem sobre a conduta pessoal de ministros, o que amplia o dano institucional. Glezer afirma que o desgaste acumulado ao longo da última década faz com que parte significativa da população já desconfie automaticamente da atuação dos magistrados citados em controvérsias. Na avaliação do professor, a crise pode abrir espaço para mudanças institucionais dentro da Corte. Entre as propostas está a criação de um código de ética para ministros do STF, medida defendida pelo presidente do tribunal, Edson Fachin, mas que enfrenta resistência interna. Para o especialista, regras claras sobre conduta poderiam funcionar como proteção institucional para os próprios magistrados e reduzir suspeitas sobre a atuação do Supremo no futuro. Fonte: VALOR