Diretora da Conmebol critica hegemonia brasileira e alerta: “Descolamento vai ser muito maior”

Durante o Football Law Annual Review (FLAR), congresso anual organizado pela Fifa e realizado em Budapeste, na Hungria, a diretora jurídica e secretária-geral adjunta da Conmebol, Montserrat Jiménez, avaliou o cenário do futebol sul-americano e apontou preocupação com a crescente distância econômica dos clubes brasileiros em relação ao restante do continente.

Ao comentar o domínio recente do Brasil na Libertadores, a dirigente foi direta ao afirmar que não gosta de ver finais compostas apenas por equipes brasileiras. Nas últimas oito decisões do torneio, apenas em 2018 não houve representantes do país na final. Desde 2019, todos os títulos foram conquistados por clubes do Brasil, que somam 11 troféus nas últimas 15 edições — um recorde na competição.

Montserrat mencionou declaração de Marcos Motta, advogado e vice-presidente do Flamengo, presente no painel, de que até 2029 apenas um clube da Série A não será SAF. Segundo ela, esse cenário acelerará a entrada de clubes brasileiros em redes multiclubes (MCOs, na sigla em inglês).

— Isso significa que clubes brasileiros vão entrar em MCOs a 500 km/h. Hoje já há diferença econômica do Brasil para os outros nove países sul-americanos. E isso significa que o descolamento vai ser muito maior, por mais que a diretora jurídica diga “eu não gosto” e que adoraria poder dizer que esse não é o caminho para a América do Sul — afirmou.

No debate, que contou também com representantes de outras federações e com Andrés Patón, diretor jurídico da Associação de Futebol da Argentina (AFA), houve divergência sobre o modelo de SAF. Patón defendeu a rejeição ao formato na Argentina, citando tradição e função social dos clubes no país.

Montserrat reconheceu que o modelo de SAFs “veio para ficar”, diante da necessidade de investimentos cada vez maiores na indústria do futebol, superiores às receitas geradas por direitos de transmissão e patrocínios. No entanto, alertou para os desafios de fiscalização da origem dos recursos, inclusive mencionando preocupação com dinheiro proveniente do narcotráfico.

— Acho que há muito trabalho a ser feito. Porque se o Brasil se distanciar muito mais do que está hoje, vamos mesmo continuar tendo finais totalmente brasileiras. Ou vamos deixar o resto dos clubes para trás? — questionou.

Ela também demonstrou receio quanto ao impacto das redes multiclubes na formação de atletas.

— Nós tiramos os garotos das ruas, nós os tiramos das drogas e o que eu vejo com o MCO, principalmente com os que vêm de dinheiro que não é do futebol, é que a formação de jogadores vai acabar. Porque a formação não é rentável. Um garoto que chega ao profissional pode representar menos de 1%. Temos que investir em milhões de garotos e vamos vender um, dois, três. Não é rentável — afirmou.

O sorteio dos grupos da Libertadores e da Sul-Americana está marcado para 19 de março, em Assunção. A final da Libertadores será disputada em Montevidéu, no Uruguai, enquanto a decisão da Sul-Americana ocorrerá em Barranquilla, na Colômbia.

Fonte: GE

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