Disputa entre PCC e Comando Vermelho transforma Rio Claro (SP) em território de guerra do tráfico

por Redação

A localização estratégica e a ausência de hegemonia no controle do tráfico de drogas transformaram Rio Claro, cidade de cerca de 200 mil habitantes no interior de São Paulo, em palco de uma disputa sangrenta entre facções criminosas, segundo investigações da Polícia Civil e do Ministério Público.

Os relatórios apontam que o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) disputam o domínio do comércio de drogas na cidade — um território considerado “sem dono” dentro do mapa do crime organizado no estado.

? A escalada da violência
Em 2025, Rio Claro registrou 24 homicídios dolosos, sendo 8 execuções, um aumento de 26,3% em relação a 2024. O índice de 11,92 homicídios por 100 mil habitantes é quase três vezes maior que a média estadual (4,09).
Em 2024, o município já havia registrado 32 assassinatos, taxa de 13,85 por 100 mil habitantes, mais que o dobro da média paulista.

Segundo a polícia, o aumento está ligado à disputa entre facções. “Há homicídios com motivações comuns, mas também execuções ligadas a brigas por espaço e poder”, afirmou o delegado seccional Paulo César Junqueira Hadich.

Território em disputa

Embora o PCC controle o tráfico em quase todo o estado, em Rio Claro a facção enfrenta fragilidade. A cidade tem um histórico de atuação fragmentada, com pequenos grupos operando de forma independente.
Um desses grupos, o “Bonde do Magrelo”, formado por dissidentes do PCC ligados ao CV, estaria na linha de frente dos conflitos.

O g1 teve acesso a relatórios que mostram que o Comando Vermelho vem ampliando sua presença no interior paulista. Uma base logística ligada à facção foi descoberta em Hortolândia, cidade próxima a Rio Claro, usada para armazenar armas, drogas e dinheiro.

Base do Comando Vermelho

A operação em março deste ano resultou na prisão de Wilson Balbino da Cruz, conhecido como “Japonês” ou “JJ”, egresso do sistema prisional. Ele é apontado como responsável pela logística do CV em São Paulo e atuava em parceria com Leonardo Felipe Panono Scupin Calixto (“Bode”), identificado como chefe regional da facção, e Edvaldo Luís Lopes Júnior (“Grão”), seu braço direito.

Na chácara em Hortolândia, policiais apreenderam 96 quilos de drogas, entre elas 57 quilos de pasta base de cocaína, além de armas, munições, rádios, notebooks e dinheiro. Parte do material estava escondida em um sofá, com forte odor de entorpecente.

Clima de medo e insegurança

Moradores relatam viver sob constante tensão. “A violência aumentou consideravelmente. Dependendo do horário, é preciso ficar muito atento”, disse um morador há 23 anos na cidade.
Outros contam que evitam sair à noite. “Hoje fecho o portão às 18h. Só se ouve falar de morte e assalto”, relatou Mônica Silveira, moradora desde a infância.

Hadich afirma que metade dos homicídios ligados às disputas já foi esclarecida, mas admite a dificuldade das investigações. “Quem executa muitas vezes vem de fora, e testemunhas têm medo de falar.”

Ação policial e força-tarefa

Rio Claro integra o Departamento de Polícia Judiciária do Interior 9 (Deinter 9), que cobre 51 cidades. O diretor do departamento, Kleber Altale, informou que há uma força-tarefa entre Polícia Civil, Militar e Ministério Público para conter o avanço das facções.

“Estamos somando esforços para dar a melhor resposta possível e enfraquecer o crime organizado na região”, afirmou Altale.

A defesa de Leonardo Calixto alegou que o caso corre em segredo de Justiça e que as acusações são improcedentes. As defesas de Wilson da Cruz e Edvaldo Lopes Júnior não se manifestaram até o fechamento desta reportagem.

Fonte: G1

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