A Companhia Brasileira de Distribuição (GPA), controladora da rede de supermercados Pão de Açúcar, informou nesta terça-feira que firmou acordo com credores para apresentar um plano de recuperação extrajudicial voltado à reestruturação de cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas sem garantia. O processo não inclui fornecedores, parceiros comerciais, clientes ou trabalhadores, que permanecem fora do plano.
Logo após o anúncio, as ações do GPA registraram forte reação negativa no mercado. Os papéis chegaram a abrir o pregão com queda de 8,8%, mas reduziram parte das perdas minutos depois, passando a recuar cerca de 4%, ainda figurando entre as maiores baixas do Ibovespa. No acumulado do ano, a desvalorização das ações já se aproxima de 30%.
A recuperação extrajudicial permite que a empresa renegocie seus débitos diretamente com os credores, sem necessidade de aprovação prévia da Justiça. Nesse modelo, a companhia suspende temporariamente o pagamento das dívidas incluídas no plano, com o objetivo de reorganizar o passivo e manter suas operações em funcionamento.
Segundo comunicado divulgado pela empresa, o acordo inicial foi firmado com credores que detêm 46% dos R$ 4,5 bilhões em dívidas contempladas no plano. O percentual supera o mínimo legal exigido para protocolar a proposta, que é de um terço dos créditos afetados.
De acordo com o GPA, o plano já produz efeitos imediatos e prevê a suspensão das obrigações financeiras com os credores envolvidos, criando um ambiente considerado mais estável para a continuidade das negociações durante os próximos 90 dias. Nesse período, a companhia pretende ampliar o apoio entre os demais credores para alcançar a maioria necessária e consolidar a reestruturação.
A empresa enfrenta um cenário financeiro pressionado. Apenas neste ano, há R$ 1,7 bilhão em dívidas vencendo, além de um capital circulante negativo de R$ 1,22 bilhão — sinal de que os recursos disponíveis no curto prazo não são suficientes para cobrir as obrigações imediatas.
Analistas avaliam que, além da renegociação com credores, o grupo poderá precisar recorrer a novas fontes de recursos, como empréstimos, aumento de capital ou venda adicional de ativos, como forma de reduzir a alavancagem.
Para o GPA, a recuperação extrajudicial representa um passo importante para reforçar o balanço e melhorar o perfil de endividamento da companhia. O presidente Alexandre Santoro, que assumiu o cargo há cerca de dois meses, vem promovendo mudanças na estrutura de diretoria com o objetivo de reverter o quadro financeiro adverso.
A empresa também afirmou que o processo não trará impacto para a operação das lojas, que continuam funcionando normalmente. Fundado em 1948 e presente em todo o país, o grupo possui mais de 728 unidades e cerca de 37 mil colaboradores diretos.
A decisão de avançar com o plano teve autorização unânime do Conselho de Administração da companhia. O fato relevante foi assinado por Pedro Vieira Lima de Albuquerque, vice-presidente de Finanças e diretor de Relações com Investidores do GPA.
Especialistas apontam que a situação atual da empresa decorre de uma combinação de fatores. Para Júlio Moret, CEO da empresa de tecnologia Neot, três elementos principais explicam a crise: o ambiente macroeconômico adverso, o elevado volume de dívidas com vencimento concentrado no curto prazo e decisões financeiras que ampliaram a pressão sobre o caixa.
Com a taxa Selic em 15% ao ano, as despesas financeiras do GPA saltaram de R$ 580 milhões em 2021 para R$ 1,679 bilhão em 2025, consumindo grande parte da geração de caixa operacional, que no último exercício ficou em R$ 699 milhões.
Outro fator relevante é a concentração de vencimentos. O passivo total relacionado ao plano chega a R$ 4,5 bilhões, enquanto obrigações que vencem até 2026 somam cerca de R$ 2,1 bilhões, considerando dívidas, juros e penalidades contratuais.
A situação foi agravada por uma sentença arbitral proferida em dezembro de 2025, que condenou o GPA a pagar R$ 170 milhões ao Grupo Casas Bahia até 11 de março de 2026. A empresa afirmou não ter condições de cumprir a decisão sem comprometer suas operações.
Entre os principais credores financeiros envolvidos estão Itaú Unibanco, Rabobank, BTG Pactual e HSBC, além de agentes fiduciários ligados a emissões de debêntures e certificados de recebíveis imobiliários. Parte desses credores ainda não aderiu ao acordo inicial, e sua participação será decisiva para que o plano alcance o quórum necessário nos próximos meses.
Segundo especialistas, o perfil dos credores — formado majoritariamente por grandes instituições financeiras — indica que a dívida do grupo está concentrada em operações bancárias e instrumentos do mercado de capitais.
A escolha pela recuperação extrajudicial, em vez da recuperação judicial tradicional, indica que a reestruturação já vinha sendo negociada previamente com parte relevante dos credores. O modelo também reduz o impacto reputacional e preserva as relações comerciais da empresa, já que não envolve fornecedores nem interfere diretamente na cadeia de abastecimento.
O GPA já vinha sinalizando dificuldades desde o início do mês, quando informou ao mercado que mantinha negociações com credores para repactuar dívidas financeiras de curto prazo. Para conduzir o processo, a companhia contratou o escritório Munhoz Advogados, especializado em reestruturação empresarial.
O setor varejista brasileiro tem enfrentado pressão com as altas taxas de juros e o aumento do endividamento. No caso do GPA, as dificuldades para reorganizar o principal negócio de alimentos já haviam sido mencionadas no balanço de 2025, divulgado em fevereiro.
Na ocasião, a empresa alertou que existiam condições que indicavam “incerteza relevante” sobre a continuidade operacional da companhia.
Desde 2021, o grupo vem promovendo um amplo processo de reestruturação, com venda de ativos considerados não essenciais. Nesse período, negociou 71 pontos comerciais do Extra com o Assaí, vendeu sua participação no Grupo Éxito, da Colômbia, e se desfez de imóveis e postos de combustível, levantando mais de R$ 1,5 bilhão.
Apesar dessas medidas, analistas avaliam que o principal desafio da companhia — a geração de caixa após o pagamento dos custos financeiros — ainda não foi solucionado, o que acabou levando ao caminho da recuperação extrajudicial.
Fonte: OGLOBO