A instabilidade provocada pelo conflito entre Estados Unidos e Irã continua influenciando o mercado internacional de petróleo e impactando os preços dos combustíveis. Apesar de o barril do petróleo estar abaixo do pico registrado em abril, os consumidores brasileiros ainda não sentiram uma redução significativa nos preços da gasolina e do diesel nos postos.
Com uma nova onda de ataques entre os dois países e a retomada do bloqueio naval ao Irã pelos Estados Unidos no Estreito de Ormuz — rota responsável por cerca de 20% do comércio global de petróleo —, o barril do Brent, referência internacional, voltou a subir em julho. Na véspera, a commodity fechou cotada a US$ 84,23, acumulando alta de 15,5% no mês.
Mesmo assim, o valor permanece distante do pico de US$ 118,03 registrado em abril. Antes da recente valorização, o Brent chegou a ser negociado próximo de US$ 70.
No Brasil, porém, a queda anterior do petróleo não foi refletida nos postos de combustíveis. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que, desde o início da guerra, em fevereiro, o diesel acumula alta de aproximadamente 10%, enquanto a gasolina registra aumento de cerca de 5%.
Especialistas ouvidos afirmam que a demora na redução dos preços é consequência de uma combinação de fatores, como a instabilidade no Oriente Médio, a insegurança sobre os próximos desdobramentos do conflito e a política de subsídios adotada pelo governo federal.
Segundo Bruno Cordeiro, analista de inteligência de mercado da StoneX, a imprevisibilidade continua sendo o principal fator que influencia os preços do petróleo e, por consequência, dos combustíveis.
“A imprevisibilidade ainda dita os preços do petróleo e, consequentemente, do diesel e da gasolina. Ainda existem muitos pontos sensíveis a serem negociados entre os dois países”, afirma.
Embora um acordo preliminar de cessar-fogo tenha sido firmado em meados de junho, a trégua entre Estados Unidos e Irã foi rompida diversas vezes. Após novos ataques com mísseis e drones, os dois países retomaram as negociações com mediação de Catar e Paquistão, que relataram um “avanço positivo” nas conversas.
Nos últimos dias, entretanto, uma nova sequência de confrontos voltou a colocar em dúvida a estabilidade do acordo.
Além disso, Donald Trump retomou o bloqueio naval dos Estados Unidos ao Irã no Estreito de Ormuz e chegou a anunciar a intenção de cobrar um pedágio de 20% sobre a carga de todos os navios que utilizassem a rota. Posteriormente, recuou da proposta e afirmou que a medida seria substituída por acordos comerciais e de investimentos com países do Golfo.
Mesmo com a mudança de posição, o tráfego reduzido na região mantém o mercado em alerta sobre a oferta global de petróleo. Especialistas destacam que a demanda permanece elevada, impulsionada pelo verão no Hemisfério Norte, período tradicionalmente marcado por maior consumo de energia nos Estados Unidos e na Europa.
O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, afirma que os estoques internacionais seguem em níveis historicamente baixos.
“Vivemos uma queda histórica nos estoques. Tanto a OCDE quanto os EUA apresentam níveis bastante baixos”, diz.
“Ainda há muita incerteza sobre o que pode acontecer. Seria necessária uma sinalização concreta do fim definitivo do conflito para iniciar a retirada de minas da região, a reconstrução dos portos destruídos e a retomada das operações. Isso leva tempo”, completa.
Especialistas também destacam que o Brasil registrou um aumento mais moderado nos preços dos combustíveis em comparação com Estados Unidos e países europeus.
Para reduzir os impactos sobre a inflação, o governo federal destinou mais de R$ 30 bilhões a medidas de contenção. A Petrobras também segurou parte dos reajustes nos momentos mais críticos da crise, evitando repassar imediatamente toda a alta aos consumidores.
“O aumento não chegou com tanta intensidade ao consumidor final. E, como a alta foi mais moderada, não há espaço para quedas também muito intensas”, explica Sérgio Vale.
Recentemente, a Petrobras reduziu em R$ 0,35 o preço do diesel nas refinarias após o encerramento do subsídio bancado pelo governo. Como a redução apenas compensou o fim do benefício, os preços para as distribuidoras permaneceram inalterados.
Além disso, o governo adiou a retirada do subsídio à gasolina devido à nova escalada do conflito no Oriente Médio.
Os especialistas acrescentam que o aumento da mistura obrigatória de etanol na gasolina, de 30% para 32%, também não deve provocar uma queda relevante nos preços ao consumidor.
“Esse aumento é importante, mas, por si só, não deve se refletir em uma redução significativa da gasolina. O principal fator que vai determinar a alta ou a queda dos preços é a situação do mercado internacional e a forma como esse movimento se transmite aos produtos importados que chegam aos portos brasileiros”, conclui Bruno Cordeiro.
Fonte: G1