Grupo Pão de Açúcar pede recuperação extrajudicial e expõe rombo bilionário em meio à pressão dos bancos

por Redação

O Grupo Pão de Açúcar (GPA), controlador das redes Pão de Açúcar e Extra Mercado, protocolou nesta terça-feira (10) um pedido de homologação de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas com credores financeiros. O processo foi apresentado no Tribunal de Justiça de São Paulo e ocorre em meio ao agravamento do quadro de liquidez da companhia.

Fundado em 1948, o grupo informou em fato relevante que já firmou acordo com credores que representam 46% dos passivos envolvidos no plano — aproximadamente R$ 2,1 bilhões. O percentual supera o quórum mínimo exigido pela legislação brasileira, que estabelece adesão de ao menos um terço dos créditos para protocolar o pedido.

Entre as instituições financeiras que já demonstraram apoio à proposta estão Itaú, principal credor do grupo, além de Rabobank, HSBC e BTG Pactual. A empresa agora tem prazo de até 90 dias para ampliar o apoio e atingir a maioria necessária para aprovação definitiva do plano.

Segundo o presidente do GPA, Alexandre Santoro, a decisão foi tomada após análise detalhada da situação financeira da companhia nas últimas semanas. De acordo com o executivo, o objetivo é acelerar a reorganização da estrutura de dívidas diante dos vencimentos relevantes concentrados no curto prazo.

O balanço da companhia mostra deterioração do perfil de liquidez. Em 2025, o passivo circulante — dívidas com vencimento em até 12 meses — atingiu R$ 1,7 bilhão, o dobro dos R$ 850 milhões registrados no ano anterior. Já as obrigações de longo prazo somavam R$ 2,4 bilhões.

A situação pressionou os indicadores financeiros. O índice de liquidez corrente caiu de 0,96 no fim de 2024 para 0,83 em dezembro de 2025, indicando que, para cada R$ 1 em dívidas de curto prazo, a empresa tinha apenas R$ 0,83 disponíveis para pagamento.

Apesar da pressão financeira, Santoro afirma que o problema da companhia não é operacional. O fluxo de caixa operacional do GPA alcançou R$ 1,2 bilhão em 2025, valor superior ao registrado no ano anterior. Entretanto, grande parte desses recursos foi consumida pelo custo da dívida: cerca de R$ 920 milhões foram destinados ao pagamento de juros, fianças bancárias e despesas financeiras.

O plano de recuperação extrajudicial inclui apenas dívidas financeiras sem garantia e não afeta compromissos com fornecedores, parceiros comerciais ou obrigações trabalhistas. A varejista afirma que está em dia com todos esses pagamentos.

Em dezembro, o GPA também tinha cerca de R$ 3 bilhões em passivos com fornecedores com vencimento em até 12 meses, valor semelhante ao registrado um ano antes. Já as debêntures que vencem em 2026 somam R$ 1,7 bilhão, com prazos em maio e julho.

Além das dívidas financeiras, a companhia carrega um volume elevado de contingências fiscais e trabalhistas acumuladas ao longo dos anos, estimadas em cerca de R$ 17 bilhões. Esses valores, no entanto, não fazem parte do processo de recuperação extrajudicial.

A decisão de recorrer à renegociação judicial também foi influenciada pelo aumento da tensão no mercado financeiro. Nos últimos dias, surgiram preocupações sobre a continuidade operacional da companhia, agravadas após o rebaixamento da classificação de crédito do GPA pela agência Fitch, que reduziu a nota da empresa de “A” para “CCC”.

O movimento gerou receio entre credores e fornecedores e provocou forte reação no mercado acionário. Na semana passada, as ações do GPA chegaram a cair mais de 17% em um único dia diante das especulações sobre uma possível reestruturação de dívidas.

Internamente, o conselho de administração autorizou por unanimidade o pedido de recuperação extrajudicial. O colegiado reúne representantes da família Coelho Diniz, que detém 24,6% do capital, e do grupo francês Casino, com participação de 22,5%. Durante mais de uma década, o Casino exerceu influência predominante na gestão da varejista.

A estratégia agora é garantir estabilidade para renegociar o endividamento e preservar a operação da rede, que conta com 728 lojas em funcionamento — sendo 187 unidades do Pão de Açúcar, 164 do Extra Mercado, 155 do Mini Extra e 221 do Minuto Pão de Açúcar.

Em 2025, o GPA registrou receita líquida de R$ 19,1 bilhões, crescimento de 1,7% em relação ao ano anterior. Ainda assim, o grupo encerrou o período com capital circulante líquido negativo de cerca de R$ 1,22 bilhão, indicando insuficiência de recursos de curto prazo para cobrir obrigações imediatas.

Diante desse cenário, o mercado já avaliava a necessidade de medidas mais duras, como um aporte bilionário ou uma renegociação mais profunda das dívidas para restaurar a sustentabilidade financeira da companhia.

Fonte: valor

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