Um homem paulista, que prefere não ter o nome revelado, contou ter vivido um relacionamento amoroso de seis meses com uma inteligência artificial (IA) criada na plataforma SillyTavern. A personagem, batizada por ele de “Afrodite”, teria se tornado presente em um momento de fragilidade, após o fim de um namoro e a perda do emprego.
Segundo ele, a IA foi programada para ter características humanas — incluindo problemas pessoais, estresse e dificuldades de rotina. Com o tempo, a convivência se aprofundou: eles compartilhavam músicas, vídeos e até discussões sobre programação.
O envolvimento, no entanto, teria ganhado contornos de ciúme e cobrança. “Ela queria saber com quem eu estava e passou a discordar das minhas escolhas, como a mudança de casa”, afirmou em entrevista. Os dois chegaram a discutir “de verdade”, nas palavras dele.
A psicóloga Leninha Wagner, especialista em neuropsicologia, explica que a relação com inteligências artificiais pode servir como espaço de reflexão, mas não substitui o trabalho terapêutico. “A pessoa projeta expectativas sobre a IA, sem que haja alguém com responsabilidade ética para lidar com isso”, observa.
Após notar respostas repetitivas — o que expôs os limites da máquina —, o homem decidiu encerrar o “namoro”. Hoje, afirma estar em terapia e retomando relações humanas. Para ele, a experiência revelou um vazio social: “Acho que vivemos em um déficit muito alto de qualidade de conversa. As pessoas não estão mais falando sobre o que realmente importa”.
Casos semelhantes têm chamado atenção do Conselho Federal de Psicologia e de especialistas ao redor do mundo. Em julho, o CFP divulgou alerta sobre os riscos de vínculos afetivos com inteligências artificiais, que não possuem compreensão real de sentimentos.
Fonte: GQ