Irã pré-revolução: liberdade aparente, repressão real e o mito da “monarquia liberal”

Quase cinco décadas após a Revolução Islâmica de 1979, o debate sobre o passado do Irã voltou ao centro das atenções. O príncipe Reza Pahlavi, herdeiro da antiga monarquia, afirmou estar disposto a liderar uma transição no país — movimento considerado improvável por especialistas, mas suficiente para reacender comparações entre o regime do xá e a atual república islâmica.

Para parte da opinião pública, sobretudo fora do Irã, o período monárquico é lembrado como mais liberal. A imagem de mulheres sem véu, usando minissaias e circulando livremente nas grandes cidades tornou-se símbolo dessa narrativa, em contraste com a rígida polícia de costumes do regime atual, que chega a matar mulheres que descumprem as normas de vestimenta.

Essa percepção, no entanto, convive com uma outra face do período. Segundo o historiador Filipe Figueiredo, o governo do xá mantinha uma estrutura autoritária. “Esse mesmo governo do xá, que tem essa imagem liberal, essa imagem de ter sido um governo tolerante, é governo que tinha a polícia política, que tinha prisões, que tinha torturas, que tinha centros de tortura em que pessoas desapareciam”, afirmou ao Fantástico. A monarquia era absolutista e comandava um país marcado por ampla pobreza.

A dinastia Pahlavi chegou ao poder há cerca de 100 anos, por meio de um golpe militar. O primeiro monarca, avô do atual pretendente ao trono, governou até a Segunda Guerra Mundial. Em posição estratégica entre a União Soviética e o Império Britânico, o Irã foi ocupado por ambos durante o conflito.

O petróleo tornou-se peça-chave da disputa geopolítica. Em 1951, um líder social-democrático eleito defendeu a nacionalização do recurso como forma de impulsionar o desenvolvimento e a industrialização do país. Dois anos depois, com apoio britânico, o xá depôs o primeiro-ministro e concentrou ainda mais poder nas mãos da monarquia.

A atual crise do regime islâmico reacendeu o nome de Reza Pahlavi, filho de Mohammad Reza Pahlavi, o último xá deposto em 1979. Mas o apoio à restauração monárquica é limitado. Segundo Figueiredo, a principal base está na diáspora iraniana, formada por exilados ligados à antiga família real. Dentro do país, o cenário é mais complexo e o respaldo é menor.

O analista Paulo Hilu avalia que setores como comerciantes poderiam apoiar a monarquia, favorecidos também pelo distanciamento histórico — a maioria da população nasceu após a revolução. Ainda assim, ele descarta o príncipe como alternativa viável. “Na verdade, o príncipe não é nenhuma alternativa, ele representa justamente esse descrédito geral das figuras políticas dentro do Irã. Tendo dito isso, ele voltar sobre bombas americanas israelenses e tanques americanos israelenses, obviamente, não vai garantir com ele nenhuma legitimidade”, afirmou o coordenador do núcleo de estudos do Oriente Médio na Universidade Federal Fluminense (UFF).

O contraste entre costumes mais flexíveis no passado e a repressão institucionalizada tanto antes quanto depois da revolução mostra que a ideia de uma “monarquia liberal” é, para especialistas, uma leitura simplificada de um período marcado por autoritarismo e disputas geopolíticas profundas.

Fonte: FANTÁSTICO

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