Brasil Mãe de santo processa motorista de aplicativo por racismo religioso e acaba acusada de intolerância por juiz; MP pede apuração no CNJ Redação27 de outubro de 2025020 visualizações Uma decisão judicial na Paraíba gerou repercussão nacional e denúncias de racismo religioso contra o juiz responsável pela sentença. O magistrado Adhemar de Paula Leite Ferreira Neto, do 2º Juizado Especial Cível de João Pessoa, negou uma indenização a uma mãe de santo que processava um motorista de aplicativo por intolerância religiosa — e afirmou, na sentença, que a intolerância teria partido da própria vítima. O caso começou em março de 2024, quando Lúcia de Fátima, líder do terreiro Ilê Axé Opó Omidewá, teve uma corrida cancelada após o motorista se recusar a ir até o local religioso. Ao cancelar a viagem, o motorista enviou a mensagem: “Sangue de Cristo tem poder, quem vai é outro kkkkk tô fora.” A religiosa registrou boletim de ocorrência, alegou racismo religioso e pediu indenização de R$ 50 mil contra o motorista e a empresa Uber, que o baniu da plataforma. Sentença e inversão de acusação Mais de um ano depois, o juiz Adhemar Ferreira Neto negou o pedido e escreveu que quem demonstrou intolerância foi a autora do processo: “Ao afirmar considerar ofensiva a frase ‘Sangue de Cristo tem poder’, denota-se que a intolerância vem dela própria, e não do motorista”, escreveu. O magistrado considerou que a mensagem seria uma “livre manifestação de fé” e que o motorista “não estava obrigado contratualmente a transportar quem não quisesse”. Segundo a sentença, não havia provas de dolo ou intenção de ofender, e a recusa da corrida estaria amparada pela liberdade do prestador de serviço. Reação da mãe de santo Em nota, Lúcia de Fátima afirmou ter recebido a decisão com “profunda comoção e indignação”. Disse que o texto do juiz causou “impacto emocional profundo” e que a sentença “reverbera na dor e na luta de todos os Povos de Terreiro”. Ela declarou ainda que seguirá firme na defesa da liberdade religiosa, apesar do abalo. Investigação do Ministério Público e pedido ao CNJ A promotora Fabiana Lobo, do Ministério Público da Paraíba, abriu uma apuração sobre a decisão e enviou representação ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), pedindo análise da conduta do magistrado. O MP também oficiou: A Corregedoria do Tribunal de Justiça da Paraíba, para apuração interna; A Delegacia de Crimes Étnico-Raciais e de Intolerância Religiosa (DECHRADI), para levantamento de inquéritos semelhantes; O Centro Estadual de Referência da Igualdade Racial João Balula, para dados sobre casos de intolerância entre 2024 e 2025. O documento afirma que a sentença representa “uma manifestação de intolerância religiosa institucionalizada”, contrariando o Protocolo de Julgamento com Perspectiva Racial do CNJ. Posição do juiz Ao g1, o juiz Adhemar Ferreira Neto disse que o processo não corre em segredo de Justiça e que qualquer pessoa pode acessar os autos. Ele afirmou que sua conduta é “pautada pela estrita observância das leis vigentes, da Lei Orgânica da Magistratura e do Código de Ética da Magistratura Nacional”, e que não pode comentar o caso porque a decisão ainda não transitou em julgado. O CNJ informou que, até o momento, não há procedimento aberto sobre o caso. Fonte: G1