A concentração simultânea de dois megablocos transformou a Rua da Consolação, no centro de São Paulo, em um gargalo humano e provocou cenas de caos durante o carnaval de rua. Milhares de foliões foram empurrados, prensados e arrastados ao longo de cerca de dois quilômetros da via, em meio a desmaios, correria, grades derrubadas e relatos de truculência policial.
O tumulto ocorreu durante a passagem do bloco comandado pelo DJ escocês Calvin Harris, trazido por uma marca de cerveja, que antecedeu o tradicional Acadêmicos do Baixo Augusta, com participação do cantor Péricles. Apesar de os eventos estarem programados para horários diferentes, a sobreposição de públicos lotou a região desde o fim da manhã.
Em sua estreia no carnaval de rua da capital paulista, Calvin Harris atraiu uma multidão após 11 anos sem se apresentar no Brasil. Já por volta das 11h, horas antes do início do show, marcado para as 15h, foliões tentavam se aproximar do trio elétrico. Mesmo antes da apresentação, surgiram críticas à organização e à decisão de concentrar dois megablocos no mesmo trecho da Consolação.
Com calor intenso e superlotação, dezenas de pessoas precisaram de atendimento médico. A prefeitura chegou a reservar um espaço da via para a circulação de ambulâncias e viaturas, mas a tentativa de contenção aumentou a tensão. Foliões passaram mal, tentaram acessar áreas restritas e, em alguns pontos, grupos derrubaram gradis para escapar da compressão. Um quartel do Corpo de Bombeiros chegou a ser invadido durante a movimentação.
A situação se agravou a ponto de a Polícia Militar usar cassetetes para tentar conter a multidão. Na altura do Cemitério da Consolação, o secretário de Subprefeituras, Fabrício Cobra, tentou mediar conflitos e ouviu críticas tanto de foliões quanto de policiais.
Fã do DJ, o profissional de comércio exterior Jefferson Almeida afirmou que a apresentação deveria ter sido organizada de forma independente. Segundo ele, apesar de considerar positiva a gratuidade do show, a mistura de públicos e a disputa por espaço contribuíram para o caos.
Calvin Harris se apresentou ao lado de Nattan, Xand Avião, Zé Vaqueiro e Felipe Amorim. Em seguida, estavam previstos Péricles, KL Jay, Simoninha e a Banda do Baixo Augusta, além de artistas como Tássia Reis, Tulipa Ruiz, André Frateschi, Dani Vie, Rom Santana e Fabiana Bombom.
Para a analista comercial Rafaela Santos, a superlotação era previsível. Ainda assim, ela relatou momentos de desespero. “Houve empurra-empurra e medo de ser pisoteada. Vi muitas pessoas desmaiarem durante o bloco”, afirmou.
Os desmaios se repetiram ao longo da tarde. Sob sol forte, a reportagem acompanhou dezenas de atendimentos médicos, com foliões desacordados, com tontura ou vômitos, atribuídos ao calor, ao consumo de bebida alcoólica e à superlotação. O acúmulo de problemas atrasou o desfile do trio patrocinado e levou o Acadêmicos do Baixo Augusta a adiar sua saída, inicialmente prevista para as 16h.
Em nota, a prefeitura informou que o “recorde de público na Rua da Consolação” levou à liberação de vias de acesso como áreas de escape, à retirada de gradis e ao bloqueio da entrada de novas pessoas na região. A Polícia Militar chegou a recomendar, pelas redes sociais, que o público evitasse o local, deixando parte do centro da cidade temporariamente “fechado”. Segundo o poder público, não houve ocorrência grave.
Situações semelhantes já haviam sido registradas na véspera, no bloco de Ivete Sangalo, que reuniu mais de 1,2 milhão de pessoas no entorno do Parque do Ibirapuera. A apresentação foi interrompida diversas vezes, e a PM desaconselhou novas concentrações diante da sequência de grandes eventos no mesmo dia.
Além dos megablocos, a Consolação também concentrou centenas de ambulantes, regulares e irregulares, o que estreitou ainda mais a via. Comerciantes improvisaram promoções e cobraram até R$ 5 pelo uso de banheiros. Para coibir furtos, policiais militares circularam fantasiados e realizaram prisões durante o evento.
Fonte: G1