A Polícia Federal deflagrou, na manhã desta quinta-feira (2), a quinta fase da Operação Unha e Carne para aprofundar investigações sobre um suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado à nova cúpula do jogo do bicho e possíveis repasses de recursos a integrantes dos Poderes Executivo e Legislativo do Estado do Rio de Janeiro. A ação cumpre três mandados de prisão preventiva e 14 de busca e apreensão. Entre os alvos estão o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) Rodrigo Bacellar, o contraventor Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho, ambos já presos, além do pastor e empresário Márcio Poncio, preso pela manhã em um flat do Hotel Grand Hyatt, na Barra da Tijuca. O ex-deputado federal Marco Antônio Cabral também é alvo da operação, sendo cumprido contra ele um mandado de busca e apreensão.
Segundo a Polícia Federal, a nova etapa da investigação teve origem na análise de listas apreendidas na cabeceira da cama de Adilsinho, que conteriam nomes de pelo menos 20 políticos de diferentes partidos e correntes ideológicas. De acordo com os investigadores, os documentos apresentam registros de supostos pagamentos, doações eleitorais e movimentações financeiras relacionadas à lavagem de dinheiro.
A principal linha investigativa busca apurar uma possível compra de influência política por meio do pagamento de propinas a agentes públicos. Conforme a PF, as listas chamaram a atenção por apontarem possíveis repasses diretos de valores a integrantes da classe política fluminense.
Em nota, a advogada de Marco Antônio Cabral afirmou que o ex-deputado nega qualquer participação em organização criminosa, lavagem de dinheiro ou recebimento de recursos de origem ilícita. A defesa de Adilsinho também rejeitou a acusação de pagamento de vantagens indevidas a políticos ou agentes públicos e declarou confiar no Poder Judiciário e no devido processo legal. Até a última atualização da reportagem, as defesas de Rodrigo Bacellar e Márcio Poncio não haviam sido localizadas.
Márcio Poncio é pastor, empresário do setor de tabaco, pai da deputada estadual Sarah Poncio (Solidariedade-RJ) e do cantor Saulo Poncio. Nas redes sociais, destaca sua atuação religiosa e empresarial, sendo conhecido pelo apelido de “pastor do cigarro”.
Marco Antônio Cabral é advogado, ex-deputado federal e ex-secretário estadual de Esporte durante o governo Luiz Fernando Pezão. Filho do ex-governador Sérgio Cabral, foi filiado ao MDB por 18 anos e atualmente é pré-candidato à Assembleia Legislativa pelo Solidariedade, mesmo partido de Sarah Poncio. Também ocupou cargo na Presidência da Alerj durante a gestão de Rodrigo Bacellar.
As investigações também recordam que, em 2023, José Eduardo Neves Cabral, outro filho de Sérgio Cabral, foi alvo da Operação Smoke Free, conduzida pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal, sob suspeita de atuar como operador financeiro de Adilsinho em um esquema de comércio ilegal de cigarros e lavagem de dinheiro.
Adilsinho foi preso em fevereiro deste ano, em Cabo Frio, durante operação da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco/RJ), formada por Polícia Federal e Polícia Civil. Segundo as investigações, ele controla a fabricação e a distribuição de cigarros ilegais na Região Metropolitana do Rio de Janeiro e expandiu sua atuação para outros estados.
Rodrigo Bacellar foi preso inicialmente na primeira fase da Operação Unha e Carne, em dezembro de 2025, sob suspeita de vazar informações da Operação Zargun, que investigava integrantes do Comando Vermelho. Na terceira fase da operação, voltou a ser preso após denúncia da Procuradoria-Geral da República no caso Ceperj e a cassação de seu mandato pelo Tribunal Superior Eleitoral. Nesta quinta-feira, ele foi conduzido a uma unidade da Polícia Federal portando uma Bíblia King James e deverá ser transferido para um presídio federal.
Nesta fase da operação, policiais federais cumprem mandados expedidos pelo Supremo Tribunal Federal em endereços localizados no Rio de Janeiro e em São João de Meriti. O ministro Alexandre de Moraes também determinou o sequestro de bens e valores de aproximadamente R$ 22 milhões.
A Polícia Federal informou que as investigações prosseguem com a análise do material apreendido, rastreamento do fluxo financeiro e apuração da eventual participação de beneficiários, intermediários e operadores do esquema. A operação integra as determinações do STF no julgamento da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, que atribuiu à PF investigações sobre organizações criminosas e suas conexões com agentes públicos no estado.
As quatro fases anteriores da Operação Unha e Carne investigaram, inicialmente, um suposto esquema de vazamento de informações sigilosas sobre operações contra o Comando Vermelho e, posteriormente, passaram a apurar suspeitas de corrupção, fraudes em contratos públicos da Secretaria Estadual de Educação e possíveis vínculos entre agentes públicos e organizações criminosas.
Fonte: OGLOBO