A possibilidade de o Viagra ser utilizado para minimizar os efeitos da altitude voltou a ganhar espaço na imprensa britânica durante a Copa do Mundo de 2026. A discussão surgiu após a classificação da Inglaterra para as quartas de final, quando a equipe passou a se preparar para enfrentar a Noruega e disputar partidas em locais de maior altitude, como a Cidade do México.
O medicamento, cujo princípio ativo é o sildenafil, não é proibido pela Agência Mundial Antidoping (WADA), o que alimentou especulações sobre um possível uso para melhorar o desempenho físico em ambientes com menor disponibilidade de oxigênio.
Segundo o endocrinologista Reinaldo Coelho Martins, especialista em metabolismo e performance, a hipótese possui fundamento fisiológico, mas os benefícios para atletas saudáveis são limitados. O sildenafil promove o relaxamento dos vasos sanguíneos, especialmente na circulação pulmonar, buscando reduzir os efeitos da vasoconstrição causada pela baixa concentração de oxigênio em grandes altitudes.
Apesar dessa ação, o especialista afirma que as evidências científicas ainda são inconclusivas.
“A evidência científica ainda é mista e limitada. Em altitudes elevadas, geralmente acima de 3.000 a 3.500 metros, alguns indivíduos podem apresentar benefício discreto, mas esse efeito não é uniforme e muitos estudos não demonstraram melhora significativa no desempenho.”
A Cidade do México, uma das sedes do Mundial, está localizada a cerca de 2.240 metros acima do nível do mar. Para o médico, essa altitude representa um desafio físico, mas não justifica o uso do medicamento.
Segundo Reinaldo Coelho Martins, a aclimatação continua sendo a estratégia mais eficaz para reduzir os impactos da altitude sobre os atletas, superando qualquer intervenção farmacológica.
Além da eficácia limitada, o sildenafil pode provocar efeitos colaterais que comprometem o rendimento esportivo. Entre eles estão dor de cabeça, tontura e queda da pressão arterial, fatores que aumentam o risco de fadiga precoce, sensação de fraqueza e desconforto durante exercícios de alta intensidade.
Embora o medicamento faça parte apenas do Programa de Monitoramento da WADA e não esteja na lista de substâncias proibidas, o especialista ressalta que isso não representa uma recomendação para seu uso.
“O fato de o sildenafil não constar na lista de substâncias proibidas não significa que seu uso seja seguro, recomendado ou traga benefícios para atletas saudáveis.”
De acordo com o médico, qualquer decisão sobre o uso de medicamentos deve ser baseada em evidências científicas, avaliação individual e indicação clínica. Para competições em altitude, a medicina esportiva mantém como principais estratégias a aclimatação entre 10 e 14 dias, o bom condicionamento físico, a hidratação adequada e o suporte nutricional.
Fonte: GQ