A morte de um jovem de 26 anos em Uberlândia (MG) levou a família a buscar a responsabilização de plataformas de apostas e influenciadores digitais. Vânia de Souza Borges afirma que o filho, Rafael Borges Amaral, desenvolveu dependência em apostas online, entrou em depressão e morreu em 2024. Agora, o caso motivou um novo pedido de investigação no Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Após acessar o celular, o e-mail e as redes sociais do filho depois da morte, a professora encontrou dezenas de mensagens promocionais enviadas por empresas de apostas, oferecendo bônus, giros grátis e incentivos para voltar a jogar.
“Depois que o Rafael morreu, todos os dias chegavam dezenas de propagandas de apostas no celular e no e-mail dele. Foi muito triste perceber que ele era bombardeado o tempo todo por esse tipo de conteúdo”, relatou.
O caso voltou a repercutir após a Agência Pública revelar uma carta escrita por Vânia, localizada entre os documentos da CPI das Bets. O relato foi anexado ao relatório final da comissão, mas o parecer da senadora Soraya Thronicke, que sugeria o indiciamento de influenciadores e empresários ligados ao setor de apostas, acabou rejeitado por quatro votos a três.
O g1 teve acesso ao documento apresentado pela família e informou que a deputada federal Dandara (PT-MG) protocolou representação no Ministério da Justiça e Segurança Pública pedindo que a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e o Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor investiguem possíveis práticas de publicidade enganosa, estratégias digitais predatórias e falhas na proteção aos consumidores envolvendo plataformas de apostas.
Segundo Vânia, o vício transformou completamente a personalidade do filho antes de evoluir para um quadro de depressão.
“O Rafael era um menino doce, generoso, irradiava alegria por onde passava. Depois ficou isolado, agressivo, já não saía mais com os amigos. Trabalhava muito, mas todo o dinheiro ia para as apostas. Ver um filho perder tudo dessa forma cortava o meu coração”, afirmou.
Ela acredita que a dependência esteve diretamente ligada ao acesso contínuo às plataformas de apostas e à publicidade realizada por influenciadores digitais.
“Eu não sei dizer exatamente quando as apostas entraram na vida dele. No começo, ele dizia que estava ganhando dinheiro. Mesmo assim, nós o aconselhávamos a parar, mas ele não conseguia. Com o tempo, ele passou a perder tudo o que conquistava”, disse.
De acordo com a família, Rafael vendeu uma motocicleta seminova avaliada em R$ 8 mil, perdeu suas economias e escondia da família a gravidade do vício. A mãe também acredita que o dinheiro que ele dizia guardar para abrir um lava a jato acabou sendo perdido nas apostas.
Pouco antes da morte, Rafael enviou um áudio a um amigo afirmando que já não conseguia controlar o vício e relatando perdas financeiras constantes.
“Depois descobri que, naquela madrugada, ele fez transferências para plataformas de apostas. Foi quando concluí que provavelmente perdeu tudo o que tinha conseguido economizar”, contou.
Segundo Vânia, um banco digital informou que Rafael realizou, às 1h48 do dia da morte, uma transferência de R$ 30 para uma conta vinculada à empresa responsável pelo chamado “Jogo do Tigrinho”. Outras instituições financeiras, segundo ela, recusaram o fornecimento dos extratos completos alegando sigilo bancário, o que impediu a família de calcular o valor total perdido.
A professora também relatou mudanças de comportamento do filho durante o período de dependência. Ela afirma que Rafael passava noites inteiras apostando, reagia com agressividade quando acumulava perdas e chegou a abandonar um emprego após faltar ao trabalho por passar a madrugada jogando.
“Quando percebi que a situação estava se agravando, comecei a conversar com ele. Só que ele não aceitava que tinha um problema. Passava noites inteiras jogando e eu acordava de madrugada, implorava que ele parasse [de apostar]. Quando perdia dinheiro, ficava extremamente nervoso. Em uma dessas discussões sobre as apostas, ele me ofendeu bastante e foi morar na casa da avó. Aquilo me machucou”, lembrou.
Após a morte do filho, Vânia procurou inicialmente a Promotoria Criminal de Uberlândia. O caso foi encaminhado às promotorias de Defesa do Consumidor e da Saúde, mas acabou arquivado pelo Ministério Público de Minas Gerais em maio de 2025.
Ela também buscou a Polícia Civil de Minas Gerais para solicitar a abertura de um inquérito, mas afirma ter sido informada de que nenhuma medida poderia ser adotada.
“Quando soube que não haveria investigação, fiquei extremamente frustrada. Disseram que foi um suicídio e que ninguém o induziu. Mas eu não me dei por vencida. Quero respostas e acredito que quem lucra incentivando pessoas vulneráveis também precisa ser responsabilizado”, declarou.
Com a nova repercussão do caso, a representação apresentada pela deputada Dandara também solicita uma investigação específica sobre a atuação de influenciadores digitais, afiliados e agências de publicidade.
O Ministério da Justiça informou ao g1 que o procedimento foi recebido e está em análise pelas áreas técnicas competentes, seguindo os trâmites administrativos. Já o Ministério Público de Minas Gerais e a Polícia Civil de Minas Gerais foram procurados pela reportagem para esclarecer o arquivamento e eventual abertura de investigação, mas não haviam respondido até a última atualização.
Fonte: G1