Universitárias recorrem a “sugar daddies” para bancar estudos e expõem dilemas da prática

Diante do alto custo do ensino superior e das dificuldades de permanência na universidade, algumas estudantes brasileiras têm recorrido a relacionamentos sugar como alternativa para financiar mensalidades e despesas básicas. A prática, embora não seja nova, ganha visibilidade em meio a debates sobre desigualdade, autonomia e exploração.

Gabriela Félix, 24 anos, sonhava cursar psicologia, mas esbarrava na falta de recursos. Antes, conciliava um trabalho com seguro de vida e freelas como garçonete, recebendo R$ 180 por um turno de 12 horas. Hoje, mantém perfil em um aplicativo que conecta mulheres a homens ricos, geralmente mais velhos. Em dois meses, afirma ter recebido R$ 600 apenas por companhia, além de frequentar ambientes aos quais não tinha acesso. “Não tem comparação com o que vivia antes”, diz.

Relacionamentos sugar envolvem acordos nos quais um homem financeiramente estável recompensa a companhia e o tempo de uma mulher mais jovem, com valores previamente combinados. As compensações podem incluir dinheiro periódico, presentes, viagens e jantares. Os acordos podem ou não envolver sexo.

No Brasil, não há dados oficiais sobre a adesão a esse tipo de relação. A plataforma Meu Patrocínio afirma ter mais de 18 milhões de usuários. Globalmente, o SeekingArrangement registra 52 milhões.

Melissa, 49 anos, relata ter iniciado nesse universo aos 18. Seu primeiro namorado, 50 anos mais velho, custeou sua formatura em publicidade. Anos depois, ao decidir cursar veterinária, contou com ajuda de três parceiros e afirma ter pago apenas os últimos seis meses do curso. “Se não fosse por ele, eu não teria me formado”, afirma, citando despesas com aluguel e cuidados com a mãe.

Monalisa, 30 anos, diz que postura e foco em crescimento pessoal são diferenciais. Estudante de Tecnologia da Informação, tem a mensalidade e o aluguel pagos pelo namorado, que descreve como bilionário. “Quem dá o preço e manda na dinâmica somos nós”, afirma. Para ela, a proposta envolve segurança, oportunidades e reciprocidade.

Especialistas apontam que a prática se insere em um contexto mais amplo de desigualdade. A antropóloga Thais Tiriba, da USP, afirma que acordos desse tipo não são novidade, embora a nomenclatura “sugar” seja recente. Em pesquisa na África do Sul, identificou que a falta de recursos no ambiente universitário leva estudantes a buscar apoio em diferentes redes, incluindo homens mais velhos.

No Brasil, apesar da ampliação do acesso ao ensino superior por meio de políticas como Prouni, Fies, Sisu e a Lei de Cotas, o custo ainda é obstáculo relevante. Dados do FNDE indicam que, em 2024, 59,3% dos beneficiários do Fies estavam endividados, com média de déficit de R$ 46 mil.

Fenômeno semelhante foi registrado nos Estados Unidos, Reino Unido e países asiáticos na última década, associado ao aumento do endividamento estudantil e ao custo de vida. Estudo de 2025 da Universidade da Flórida apontou que incentivos monetários e pagamento de mensalidades influenciaram a disposição para envolvimento em serviços mais explícitos.

A prática, contudo, é alvo de críticas. A ativista Maria Elisa Escobar argumenta que a glamourização do sugar dating pode reforçar desigualdades e vulnerabilidades, aproximando mulheres de contextos de exploração sexual. Já Tiriba pondera que relações afetivas frequentemente envolvem trocas materiais e que o rótulo “sugar” tende a intensificar julgamentos morais.

Para Melissa e Monalisa, a comparação com prostituição é inadequada. Elas defendem que se tratam de relações duradouras, com benefícios mútuos e menor cobrança emocional, inclusive quando envolvem homens casados.

Entre ascensão social, busca por estabilidade e críticas sobre poder e consentimento, o universo sugar revela tensões entre autonomia individual e desigualdades estruturais que marcam o acesso à educação e às oportunidades no país.

Notícias Relacionadas

Influenciadora diz que mudou tanto após cirurgias que precisou refazer passaporte três vezes

Estudo revela como cães alteram a qualidade do ar dentro de casa

Idênticos por fora, confusão por 60 km: mulher leva carro errado e só percebe após contato da polícia em SC