Sonhos desfeitos: ‘Pegam as crianças em parques’, diz brasileira que vive pela segunda vez medo de separação da família nos EUA

por Redação

“Vim com minha família aos Estados Unidos no início de 2020, sem coiotes [traficantes de pessoas]. O motivo da minha vinda foi porque sofria perseguições devido a alguns partidos políticos que eu apoiava e porque lutava por algumas causas na minha cidade. Infelizmente, a Justiça no Brasil não funcionava. Por isso, mudamos de estado duas vezes, fomos morar no Rio de Janeiro, depois em São Paulo, até tomarmos a decisão de vir para cá.

Saímos do Brasil, chegamos ao México e, dois dias depois, nos entregávamos à Imigração. Na época, ainda era Donald Trump quem governava [último ano do primeiro mandato]. Dali em diante, foram 15 dias detidos. Nós nos entregamos na cidade de Tijuana, na fronteira dos EUA com o México, e de lá fomos para Santo Antonio [Texas], onde ficamos numa cadeia durante três dias.

Fui separada dos meus filhos. Tenho quatro, duas meninas e dois meninos. Eles vieram com 2, 3, 5 e 11 anos. Hoje estão com 6, 7, 10 anos e o mais velho completa 17 em breve.

Lá, eu fiquei numa cela com as duas meninas — a mais nova é uma bebê especial — e meu marido ficou em outra cela com os dois meninos. Ficamos nessa cadeia em uma situação muito precária. Era uma cela para 16 pessoas, e nós estávamos em 25 mães, com um total de 42 crianças. Minha filha mais nova ainda era bebê de colo.

Depois de três dias ali, fomos transferidos para Yuma, no Arizona, onde ficamos mais 12 dias sem tomar banho, comendo sanduíche estragado e sendo humilhados. Depois disso, eles queriam nos obrigar a assinar a deportação. Como não tínhamos a opção de voltar ao Brasil porque sofríamos perseguição, aguentamos tudo lá, calados. Mesmo assim, eles nos colocaram sob o programa que existia na época, o MPP [também conhecido como ‘Fique no México’, obrigando requerentes de asilo a permanecerem no país vizinho enquanto aguardavam audiências de imigração nos EUA].

Então, eles nos deportaram para o México. Nos tiraram de Yuma e voltamos para o Texas. Em seguida, fomos para El Paso e, de lá, mandados para um albergue em Ciudad Juárez, no México, onde ficamos por um ano e um mês. Quando eu cheguei nesse albergue, havia mais de 200 famílias brasileiras e muitas da América Central, de Guatemala, El Salvador, Equador, Honduras… E ali começou outro sofrimento, porque, enquanto as 200 famílias brasileiras se programavam para voltar ao Brasil, nós ficamos, dada a nossa situação, e sofremos.

Trump, naquela época, baixou o Título 42 [uma regra imposta pelo governo americano no início da pandemia de Covid-19, que tornou praticamente impossível pedir asilo nos EUA], e aí ninguém podia entrar no país. Então, a minha audiência, que era para ocorrer logo um mês depois de ser devolvida para o México, foi adiada durante esse período todo de um ano que fiquei por lá.

Quando vieram as eleições, em 2020, [Joe] Biden ganhou, graças a Deus, assumindo em 2021. Assim, a gente entrou [nos EUA] com dignidade. Depois de um ano e um mês, entramos num posto de entrada de Ciudad Juárez, na divisa com El Paso, no Texas. Já tínhamos o I-94 válido [documento que prova que um estrangeiro foi legalmente admitido nos EUA] e autorização de trabalho por sermos requerentes de asilo, que ainda não foi aprovado, mas será. Não precisamos ficar detidos, passamos da imigração igual a uma pessoa normal que vem com um visto.

Até então, estava tudo muito bom. A economia não estava lá essas coisas na época de Biden, mas estava bom. Podíamos comprar, podíamos sair, podíamos nos divertir…

Sempre houve deportações, independentemente de governo. Biden deportou muita gente também, mas era com base. Não era a torto e direito, pegando todo mundo na rua, indo nas obras, catando pessoas como animais, com pessoas mascaradas, pessoas sequestradas… Não existia isso na época de Biden.

Eu tenho muito o que agradecer a Biden por tudo, porque, se Trump tivesse vencido naquela época, eu acho que estaria até hoje no México sofrendo com os meus filhos. E eu sofri. Sofri todos os tipos de violência que uma pessoa poderia aguentar. Meus filhos foram agredidos, humilhados. Foram muitas situações desconfortáveis que aconteceram com a gente durante esse um ano e um mês no México.

Falem o que quiser, mas a gente teve quatro anos maravilhosos de governo Biden. A extrema direita é tão nojenta quanto a extrema esquerda, eles usam de armas e agem da mesma forma.

Então, desde que Kamala [Harris] perdeu em 2024 e Trump assumiu em 2025, de janeiro pra cá, foi só inferno. Só inferno, só inferno. Os extremistas estão mostrando as suas faces, a hipocrisia está gritando, porque são pessoas conservadoras, que falam de Deus, que carregam a Bíblia, que dizem ser cristãos e estão destilando ódio ao próximo.

Eu concordo que o país tem que ser limpo de criminosos. Que tem, sim, que deportar criminosos, mas quem está com seu devido processo em andamento merece respeito. Estão agindo e pegando pessoas por aparência. Se não é uma pessoa branca de olhos claros, eles pegam. Estão sendo bem cruéis.

Eles não podem vir atrás da gente, estamos com um processo ativo legal. Porém, se tiver uma batida na rua, eles podem me pegar e me deixar detida. E é o que tem acontecido com várias outras pessoas. Pegam gente que tem green card [visto de residência], até cidadão eles prendem. Por exemplo, ontem [meados de junho] na Califórnia, um menino de 16 anos de aparência hispânica foi preso pela Imigração mesmo sendo cidadão. Estão (agindo) com abuso incondicional de poder, de autoridade.

Eles estão rasgando a Constituição, estão passando por cima de tudo e de todos. É uma situação triste. Meu amigo foi preso há um mês, e depois foram na casa da esposa dele tentar pegá-la também. É uma situação muito desconfortável. Pegam crianças em parques. Meus filhos estão de férias e a gente está vivendo dentro de casa, ninguém sai por medo. É uma situação complicada.

Trump é um homem autoritário, xenofóbico, homofóbico. Esse tipo rasgou a Constituição americana. Eu nunca vi uma pessoa tão baixa que assumiu a Presidência com a Bíblia na mão e não tem o mínimo de respeito por ninguém. Estamos vivendo tempos difíceis, mas a gente vai vencer, porque aquele que é cristão de verdade perdoa esse tipo de gente, e eu os perdoo. Eu creio que a justiça de Deus virá sobre a vida deles.

Mas está difícil. A gente está com medo de ser deportado. A gente não pode voltar pelas ameaças, mas a gente sofre ameaça aqui dentro também. Está difícil. Eu não consigo falar tudo, porque me dói a alma. A gente tem vivido com muito medo, com pânico, crise de ansiedade. Eu mal consigo me expressar, me desculpe. É que me dói muito. O medo do marido ir para o trabalho e não voltar pra casa… É muita coisa envolvida.”

*Célia, nome fictício para preservar sua identidade, em relato à repórter Amanda Scatolini. Ela vive, pela segunda vez, à espera, com a família, de obter asilo nos Estados Unidos desde 2020, mas teme que sejam deportados ou separados antes que o processo seja concluído, em meio ao avanço da rígida agenda anti-imigração do presidente Donald Trump.

Fonte: OGLOBO

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