A Polícia do Rio de Janeiro realizou a maior apreensão de fuzis da história em uma única operação em favelas: pelo menos 91 armas foram encontradas durante a megaoperação contra o Comando Vermelho no Complexo do Alemão. As armas, de calibres capazes de perfurar coletes à prova de bala e até paredes, revelam uma nova e sofisticada rota de abastecimento das facções cariocas.
As investigações da Polícia Federal indicam que parte desse arsenal não veio do exterior, mas de fábricas clandestinas instaladas em Minas Gerais e São Paulo, que alimentavam diretamente o Comando Vermelho. Imagens obtidas pelo Fantástico mostram o funcionamento dessa rede criminosa, que contava com tecnologia avançada e estrutura industrial.
De acordo com a PF, Rafael Xavier do Nascimento fazia o transporte de fuzis de São Paulo para o Rio de Janeiro ao menos uma vez por mês. Ele foi preso em flagrante na Via Dutra com 13 fuzis. No celular, a polícia encontrou mensagens trocadas com o destinatário das armas.
As armas eram fabricadas em Santa Bárbara d’Oeste (SP). No local, a PF apreendeu cerca de 150 fuzis prontos e mais de 30 mil peças. A linha de montagem, equipada com tornos e fresadoras de precisão, tinha capacidade para produzir até 3.500 fuzis por ano. “Era uma operação profissional, com equipamentos que custavam milhões de reais”, afirmou o delegado Samuel Escobar.
O esquema usava como fachada o CNPJ de uma fábrica de peças aeronáuticas pertencente ao piloto Gabriel Carvalho Belchior, que em 2015 sobreviveu à queda de uma aeronave no Leblon. Antes da operação da PF, Belchior deixou o país e atualmente está foragido. Segundo as investigações, ele enviava fuzis desmontados dos EUA escondidos em caixas de piscinas infláveis e outras mercadorias. A Receita Federal interceptou uma das remessas em agosto, e o nome de Gabriel foi incluído na lista de procurados da Interpol.
Outro elo da rede era Silas Diniz Carvalho, preso em 2023 com 47 fuzis em seu apartamento na Barra da Tijuca. Ele mantinha outra fábrica clandestina em Belo Horizonte, onde a produção era disfarçada em uma suposta marcenaria. A PF afirma que a esposa de Silas, Marcely Ávila Machado, também participava da operação.
A estimativa é de que o grupo tenha produzido e fornecido cerca de mil fuzis para o Comando Vermelho e para milícias no Rio de Janeiro, além de grupos criminosos na Bahia e no Ceará. A Polícia Civil do Rio fará perícia nos 91 fuzis apreendidos, e pelo menos 25 deles são do mesmo modelo AR-15 calibre 5.56, fabricados em Santa Bárbara d’Oeste.
Segundo o Instituto Sou da Paz, o número de fuzis apreendidos no Rio de Janeiro aumentou 32% entre 2019 e 2023, indicando o crescimento da circulação de armas de guerra nas mãos do crime organizado.
A produção do Fantástico não conseguiu contato com as defesas de Silas Diniz Carvalho e Anderson Custódio Gomes, que estão presos, nem localizou Marcely Ávila Machado e Gabriel Carvalho Belchior, foragido.
Fonte: FANTÁSTICO