Uma apuração do Fantástico revelou que três estudantes de medicina com alto padrão de vida receberam recursos do programa Passe Bolsa, da Prefeitura de Indaiatuba (SP), criado para apoiar alunos em situação de vulnerabilidade socioeconômica. O caso levantou suspeitas sobre falhas na concessão do benefício, que existe há cerca de 20 anos.
De acordo com a legislação municipal, o Passe Bolsa prevê o reembolso de mensalidades de cursos superiores ou técnicos apenas para estudantes que comprovem carência financeira. A norma também proíbe o repasse para alunos de segunda graduação ou pós-graduação.
No entanto, segundo o levantamento, pelo menos 25 beneficiários não atenderiam aos critérios. Juntos, eles receberam R$ 513 mil – mais da metade do total repassado entre 2023 e julho de 2025.
Caso Ísis Furlan
Ísis Furlan, formada em administração e atualmente estudante de medicina, recebeu R$ 55 mil do programa. Nas redes sociais, ela exibe viagens ao exterior e estágio no Japão, além de trabalhar em uma clínica de estética de alto padrão. Questionado pelo Fantástico, o pai da jovem admitiu ter boas condições financeiras e ironizou o programa:
“Desde quando só pessoas vulneráveis têm direito a alguma bolsa?”, respondeu.
Caso Samya Arthuzo
Outra beneficiária é Samya Arthuzo, que recebeu cerca de R$ 33 mil entre 2024 e 2025. Moradora de um condomínio onde casas chegam a R$ 7 milhões, ela é filha de uma procuradora municipal de Salto, que ganha R$ 41 mil mensais. A estudante já realizou estágio em um hospital em Orlando, nos Estados Unidos.
Os pais afirmaram que o edital não deixava claro que o benefício era exclusivo para pessoas carentes, mas a lei de 2005 indica expressamente essa exigência.
Caso Luana Scallet
A estudante Luana Scallet também foi aprovada para o benefício em 2025 e já recebeu R$ 10 mil em reembolsos. Moradora de um condomínio de luxo, é filha de empresários do ramo imobiliário. Nas redes sociais, exibe viagens para Argentina, Uruguai e Itália.
A família alegou que o auxílio foi obtido “seguindo rigorosamente todos os critérios e requisitos”.
Investigação
O Ministério Público acompanha o caso. O prefeito Custódio Tavares Dias Neto (MDB) afirmou que um levantamento está em andamento para identificar pagamentos indevidos. Segundo a prefeitura, uma servidora foi demitida após a constatação de irregularidades e os beneficiários notificados devem devolver os valores recebidos.
Entre 2023 e julho de 2025, 170 alunos receberam quase R$ 1 milhão do programa. O episódio reacende o debate sobre a transparência na aplicação de recursos públicos e os critérios de seleção de programas sociais municipais.
Fonte: FANTÁSTICO