Drones kamikaze de baixo custo mudam lógica econômica da guerra moderna

por Redação

O uso crescente de drones kamikaze em conflitos recentes, especialmente no Oriente Médio e na guerra entre Rússia e Ucrânia, tem alterado a lógica econômica das operações militares. Equipamentos relativamente baratos passaram a causar danos significativos a alvos estratégicos, desafiando sistemas de defesa que custam milhões de dólares.

Desde o início dos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, há cerca de uma semana, drones têm sido utilizados em bombardeios que atingiram bases militares, infraestruturas petrolíferas e prédios civis.

Um dos modelos mais conhecidos é o Shahed-136, de origem iraniana. Classificado como um drone “kamikaze”, o equipamento é projetado para se autodestruir ao atingir o alvo. A tecnologia foi posteriormente absorvida pela Rússia durante a guerra na Ucrânia e também inspirou o desenvolvimento de versões americanas, como o drone Lucas (Sistema de Ataque de Combate Não Tripulado de Baixo Custo).

Os drones kamikaze integram uma das três categorias mais comuns no setor de defesa. As outras são os drones de reconhecimento, usados para coleta de imagens e informações, e os drones armados, capazes de lançar mísseis ou pequenas bombas contra alvos específicos.

Segundo o CEO global da Taurus Armas, Salesio Nuhs, esses sistemas costumam atuar de forma coordenada em operações militares.

“Em operações complexas, como as associadas a tensões envolvendo Irã, esses diferentes tipos podem ser usados juntos. Alguns drones observam, outros saturam a defesa aérea e outros fazem o ataque final”, afirma.

No caso das chamadas “munições vagantes”, como o Shahed-136, o equipamento permanece sobrevoando uma área até localizar um alvo e então se chocar contra ele.

A popularização desses drones também está ligada à queda no custo de componentes eletrônicos essenciais. O sensor inercial, fundamental para o sistema de equilíbrio da aeronave, caiu drasticamente de preço nas últimas décadas.

“Em 2004, um sensor inercial custava US$ 15 mil. Em 2013 custava US$ 1 mil e hoje não custa mais do que US$ 30”, compara o fundador e CEO da empresa brasileira Xmobots, Giovani Amianti.

Durante a guerra iniciada em 2022, os ucranianos recorreram à improvisação tecnológica para enfrentar a ofensiva russa. Sem recursos suficientes para armamentos sofisticados, passaram a montar drones internamente, utilizando motores e autopilotos comprados da China e peças produzidas com impressoras 3D.

“Enquanto a Rússia atacava a Ucrânia com tanques e caças que custam milhões de dólares, os ucranianos começaram a fixar morteiros ou pequenas granadas em cima de drones, com um custo de US$ 2 mil, formando esquadrões de pilotos de drones”, relata Amianti.

A resposta russa incluiu a nacionalização da tecnologia iraniana de drones kamikaze, ampliando um mercado global que já movimenta dezenas de bilhões de dólares.

Dados da consultoria britânica IDTechEx mostram que os drones militares representavam US$ 13 bilhões em vendas em 2023, o equivalente a 34,5% do mercado global. No ano passado, esse valor subiu para US$ 25 bilhões, correspondendo a 42,6% das vendas totais do setor.

A projeção é que o mercado global de drones alcance US$ 69 bilhões em receita neste ano, crescimento de 17,6% em relação a 2025. Até 2036, as vendas podem atingir US$ 147,8 bilhões.

Além do avanço tecnológico, a inteligência artificial tem ampliado a autonomia desses equipamentos. Hoje, muitos drones já são programados para atingir alvos específicos por meio de geolocalização e reconhecimento de imagens, eliminando a necessidade de controle remoto contínuo.

“Nos modelos atuais, é feita uma programação. Uma vez lançado, o drone não tem mais volta”, explica Amianti.

Em ambientes onde o GPS pode ser bloqueado, algoritmos permitem que o drone continue navegando com base em imagens do terreno ou sensores internos.

“A IA pode ajudar o drone a voar de forma mais estável, evitando obstáculos e seguindo rotas complexas”, afirma Nuhs.

Um Shahed-136 pesa cerca de 200 quilos, tem alcance de até 2 mil quilômetros e pode transportar aproximadamente 40 quilos de explosivos. O custo varia entre US$ 20 mil e US$ 50 mil.

O problema para as forças de defesa é que a interceptação desses drones costuma exigir sistemas muito mais caros. Mísseis Patriot, por exemplo, custam cerca de US$ 4 milhões cada, embora apresentem taxas de interceptação superiores a 90%.

Essa diferença de custo tornou-se um desafio estratégico para planejadores militares.

“Guerra é economia. Se você conseguir criar mais transtorno para o oponente com o mínimo de dinheiro investido, acaba ganhando a guerra econômica”, afirma Gilberto Buffara Júnior, CEO da Stella Tecnologia, empresa brasileira que desenvolve drones para os setores de defesa, segurança e indústria.

Para reduzir esses custos, países como os Estados Unidos testam alternativas como armas a laser e sistemas antidrone mais baratos. Startups de defesa também têm atraído investimentos para desenvolver novas tecnologias de interceptação baseadas em inteligência artificial.

Apesar dos avanços, especialistas alertam para riscos associados ao uso de IA em sistemas militares autônomos.

Segundo o professor do Instituto de Computação da Unicamp e pesquisador do Smartness, Luiz Fernando Bittencourt, falhas ou interpretações equivocadas de algoritmos podem gerar decisões perigosas em cenários de combate.

“Tomadas de decisão podem ser exacerbadas em situações em que o drone encontra cenários desconhecidos que não foram utilizados no treinamento do modelo de aprendizado de máquina, incorrendo em decisões confusas, potencialmente incorretas ou prejudiciais”, afirma.

Fonte: VALOR

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