O avanço das investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e o escândalo de desvios de aposentadorias ligados ao Banco Master passou a provocar uma aproximação política incomum entre PT e partidos do Centrão no Congresso Nacional. O movimento tem como objetivo barrar a prorrogação dos trabalhos da CPI do INSS, cujo prazo termina na próxima semana.
Apesar de estarem em lados opostos na maioria das disputas recentes, lideranças governistas e dirigentes do bloco passaram a atuar nos bastidores para evitar a continuidade das apurações. Sem ambiente político favorável para avançar no Legislativo, integrantes da comissão recorreram ao Supremo Tribunal Federal (STF) em busca de garantir a sobrevida do colegiado.
A avaliação entre parlamentares é que o caso deixou de representar apenas um problema para o governo e passou a atingir figuras relevantes do centro e da direita, após a divulgação de mensagens e registros que indicariam a rede de relações do banqueiro Daniel Vorcaro com lideranças nacionais. O cenário contribuiu para aproximar interesses que até então caminhavam separados.
De um lado, o Palácio do Planalto tenta conter o desgaste provocado pela proximidade das investigações com o entorno do presidente Lula. De outro, partidos do Centrão buscam evitar novas revelações em pleno ano eleitoral. Nos últimos dias, líderes dessas siglas intensificaram a pressão sobre deputados e senadores para que retirem assinaturas do pedido de prorrogação da CPI.
O requerimento, apresentado ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), conta com 175 deputados e 29 senadores — número suficiente para sustentar a continuidade da comissão. No entanto, o documento segue sem andamento há meses, diante da resistência da presidência da Casa em dar seguimento à tramitação.
Até agora, não houve retirada formal de assinaturas. Parte do Centrão aposta na estratégia de isolar a oposição nas cobranças pela prorrogação, o que enfraqueceria o movimento. O entendimento de Alcolumbre é que não há precedente que obrigue o chefe do Legislativo a estender os trabalhos de uma CPI.
O apoio à continuidade está concentrado principalmente em parlamentares do PL, do Novo e em setores da direita. O PT não assinou o requerimento e, segundo relatos, atua em sintonia com a presidência do Senado para manter o pedido parado.
Governistas argumentam publicamente que a comissão enfrenta dificuldades para avançar em investigações relacionadas a figuras da direita e citam decisões do STF que desobrigaram convocados a depor. O deputado Rogério Correia (PT-MG) afirmou que não há motivos para prorrogar os trabalhos.
No Centrão, o desconforto aumentou após a divulgação de mensagens que indicariam proximidade entre o banqueiro Daniel Vorcaro e lideranças como o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o presidente do União Brasil, Antônio Rueda. Interlocutores relatam que há um consenso interno pela necessidade de reduzir a tensão política.
A federação União Brasil-PP, que reúne dezenas de parlamentares signatários do pedido de prorrogação, passou a ter papel central nas articulações. Reservadamente, integrantes admitem que o avanço das investigações elevou o risco político e reforçou a pressão pelo esvaziamento da CPI.
O vazamento de informações sigilosas recebidas pela comissão também deteriorou o ambiente no Congresso e passou a ser citado como um dos fatores contrários à extensão dos trabalhos. Em siglas como PSD e Republicanos, o clima é de menor tensão. O senador Cleitinho (Republicanos-MG) afirmou não haver orientação formal do partido, embora defenda a prorrogação.
Na cúpula do Congresso, cresce o entendimento de que a comissão já produziu seus principais efeitos políticos e que uma eventual extensão teria impacto prático limitado. Em contrapartida, manter a CPI ativa significaria prolongar o desgaste em meio ao calendário eleitoral de 2026.
A decisão de recorrer ao STF agravou o cenário. O presidente da CPI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), ingressou com mandado de segurança ao lado do relator Alfredo Gaspar (União-AL) e do deputado Marcel Van Hattem (Novo-RS), pedindo que o ministro André Mendonça determine a prorrogação.
No recurso, os parlamentares alegam omissão da Mesa Diretora e do presidente do Senado, sob o argumento de que o requerimento protocolado em dezembro não foi sequer lido em plenário. A judicialização foi recebida com irritação por lideranças do Congresso, que veem na iniciativa uma tentativa de contornar a condução interna do Legislativo.
Fonte: OGLOBO