O governo brasileiro anunciou nesta sexta-feira um acordo com os Estados Unidos para intensificar o combate ao crime organizado transnacional, em uma iniciativa que amplia o nível de cooperação entre os dois países. Batizado de Projeto MIT (Mutual Interdiction Team), o pacto envolve a integração entre a Receita Federal do Brasil e o U.S. Customs and Border Protection (CBP).
A proposta prevê o compartilhamento de informações de inteligência e a realização de operações coordenadas para interceptar cargas ilegais, especialmente armas e drogas. O acordo faz parte da agenda bilateral entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, em meio ao aumento da pressão internacional sobre organizações criminosas com atuação na América Latina.
Nos bastidores, cresce nos Estados Unidos o debate sobre classificar facções estrangeiras como grupos terroristas — medida que pode ampliar sanções e mecanismos de repressão. Embora não haja confirmação envolvendo grupos brasileiros, o cenário reforça a necessidade de ações conjuntas.
Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, o acordo representa um avanço concreto após diálogo entre os presidentes dos dois países. Ele destacou que a iniciativa busca aumentar a efetividade no combate ao crime e reduzir a circulação de armas no Brasil, além de abrir caminho para novos acordos internacionais.
Um dos principais instrumentos será o “Programa Desarma”, sistema da Receita Federal que permitirá o rastreamento internacional de armas e materiais sensíveis com compartilhamento de dados em tempo real. A ferramenta organiza informações detalhadas sobre apreensões, como origem, logística e identificação de produtos, facilitando o mapeamento de redes ilegais.
Outro mecanismo é o “remote targeting”, que possibilita a análise remota de cargas antes da chegada ao destino, com cruzamento de imagens e dados de inteligência entre os países. As informações incluem dados de exportadores e remetentes, respeitando acordos internacionais e garantindo sigilo.
A estratégia brasileira será liderada pela Polícia Federal, com apoio do Ministério da Fazenda na área de inteligência financeira. Segundo autoridades, o acordo inaugura um novo nível de troca de dados, permitindo rastrear rotas e métodos usados por organizações criminosas.
Dados recentes evidenciam o desafio: nos últimos 12 meses, mais de 1.100 armas ou peças vindas dos EUA foram apreendidas no Brasil, somando cerca de meia tonelada. Apenas no primeiro trimestre de 2026, mais de 1,5 tonelada de drogas com origem americana foi interceptada.
As informações compartilhadas já permitiram identificar métodos sofisticados de ocultação, como partes de fuzis escondidas em equipamentos de airsoft e drogas camufladas em produtos comuns enviados por remessas postais.
O acordo marca um novo estágio na cooperação internacional e reforça o esforço conjunto para conter o avanço do crime organizado e suas redes globais.
Fonte: OGLOBO