Os primeiros testes da Seleção Brasileira sob o comando de Carlo Ancelotti já indicam um padrão claro de jogo: um time moldado à imagem do Real Madrid de sua segunda passagem. A derrota por 2 a 1 para a França e a vitória por 3 a 1 sobre a Croácia evidenciaram tanto o potencial quanto as limitações desse modelo às vésperas da Copa do Mundo de 2026.
A estrutura tática adotada é praticamente idêntica à do clube espanhol. O Brasil atua em um 4-4-2 flexível, que pode se transformar em um 4-2-4, com forte presença ofensiva pelos lados. Nesse sistema, Vinícius Júnior assume papel central, atuando como segundo atacante com liberdade total de movimentação — exatamente como faz no Real Madrid. A proposta é clara: o protagonismo ofensivo passa pelos pés do camisa 7.
No entanto, a dependência do atacante também expõe fragilidades. Na derrota para a França, a Seleção teve dificuldades ofensivas justamente pela ausência de uma atuação decisiva de Vini, que ainda não reproduziu na equipe nacional o mesmo impacto que tem no futebol europeu.
Outro ponto-chave do modelo é a retomada de Casemiro como pilar do meio-campo. O volante atua como um “camisa 5” clássico, responsável por proteger a defesa e organizar a saída de bola. Quando bem posicionado, o sistema se mostra sólido; quando falha, como no primeiro gol sofrido contra a França, a equipe fica vulnerável.
No setor ofensivo, Ancelotti aposta em velocidade, transições rápidas e liberdade de movimentação, mas ainda carece de um articulador capaz de organizar o jogo. A ausência de um “cérebro” criativo — função que poderia ser desempenhada por Neymar, hoje sem sequência — limita o funcionamento coletivo em momentos decisivos.
Apesar das semelhanças estruturais, falta à Seleção o principal atributo do Real Madrid multicampeão: a capacidade de decidir partidas mesmo sem grande desempenho. Esse componente emocional e competitivo ainda não se consolidou no time brasileiro.
O saldo inicial do trabalho de Ancelotti é irregular. A equipe já apresentou bons momentos, mas também oscilações. Em comparação recente, o desempenho supera as passagens de Diniz e Dorival, mas ainda fica abaixo do nível atingido por Tite.
A pouco mais de um ano da Copa do Mundo, o Brasil já tem uma identidade definida. Resta saber se conseguirá transformar o modelo em resultados — elemento que, historicamente, pesa mais do que o desempenho em torneios de tiro curto.
Fonte: GE