Relatos recentes revelam um cenário alarmante envolvendo a venda e o uso de canetas emagrecedoras clandestinas no Brasil. Pacientes têm apresentado reações severas após aplicações de suposta tirzepatida — substância presente no medicamento Mounjaro — adquiridas fora dos canais oficiais e sem qualquer garantia de procedência. A popularização dos injetáveis para perda de peso, aliada à busca por resultados rápidos e preços mais baixos, tem impulsionado um mercado paralelo que opera sem controle sanitário.
O chef Paulo Marin, de 50 anos, é um dos casos mais marcantes. Após ser atendido por alguém que se apresentava como médico, em um consultório improvisado e sem qualquer exibição de frascos, lotes ou receita, ele recebeu aplicações semanais por R$ 250. As reações foram imediatas: náuseas intensas, tontura, vômito e hematomas. Em uma tentativa anterior, ao usar a chamada “caneta do Paraguai”, acabou hospitalizado após fortes sintomas gastrointestinais.
Especialistas afirmam que os riscos começam muito antes da aplicação. Análises laboratoriais detectaram purezas extremamente baixas — entre 7% e 14% — em produtos vendidos como tirzepatida, quando o medicamento original exige 99%. Foram identificadas substâncias desconhecidas, falta de esterilidade e até presença de sibutramina, proibida para uso injetável. A manipulação regular é permitida no país, mas exige uma série de critérios rígidos, como insumo rastreável, ambiente estéril, produção individualizada e prescrição médica — exigências que o mercado clandestino simplesmente ignora.
O resultado são reações imprevisíveis no organismo: vômitos persistentes, desidratação, febre, manchas pelo corpo, surtos psicóticos, diverticulite, taquicardia e risco de infecção sistêmica. Em casos extremos, pode haver risco de morte. A aposentada Ivete de Freitas, 69 anos, relata que, ao aplicar um frasco supostamente importado da Argentina, seu corpo ficou tomado por placas vermelhas em poucos minutos — sintomas que se repetiram e se agravaram nas aplicações seguintes.
Entre os riscos menos visíveis está o atraso no tratamento adequado. Quem usa produtos falsificados acredita estar sob efeito terapêutico, enquanto diabetes ou obesidade seguem sem controle — aumentando complicações cardiovasculares e metabólicas.
A fabricante do Mounjaro, Eli Lilly, alerta que não autoriza manipulação, revenda a granel ou frascos multidoses. Segundo a empresa, qualquer solução líquida comercializada como tirzepatida fora dos canais oficiais deve ser tratada como falsificação. Análises recentes identificaram desde substâncias desconhecidas até ausência total do princípio ativo.
O avanço desse mercado paralelo preocupa médicos e autoridades sanitárias, que reforçam a importância da prescrição médica, da compra exclusiva em canais regulamentados e da denúncia de irregularidades. Para especialistas, o aumento de casos graves é um alerta de que a busca pelo emagrecimento rápido tem se tornado uma porta de entrada para riscos sérios e muitas vezes irreversíveis.
Fonte: G1