Olhando de cima, a diferença é nítida. Onde antes havia uma faixa cinza cortando o tradicional bairro da Penha, na Zona Leste de São Paulo, hoje se estende um corredor verde.
Em duas décadas, a paisagem às margens do Córrego Tiquatira foi completamente transformada: o que era um terreno degradado e cheio de lixo se tornou uma floresta urbana.
O Parque Linear Tiquatira, com mais de três quilômetros de extensão, é hoje uma das maiores áreas verdes contínuas em meio ao concreto paulistano. E o início dessa mudança não veio do poder público, mas da decisão individual de um morador: o aposentado Hélio da Silva, de 74 anos.
Morador da região há mais de seis décadas, Hélio se incomodava com o abandono do córrego.
“Eu vi essa degradação se acentuando. Um dia, disse à minha família que iria mudar tudo isso em dez anos. Eles acharam loucura, mas foi aí que decidi seguir em frente”, lembra.
Desde 2003, ele dedica os fins de semana a plantar, regar e registrar cada muda em fichários. Hoje, são mais de 42 mil árvores catalogadas ao longo do Tiquatira — entre elas ipês, jatobás, pau-brasis e até araucárias. Cerca de 3 mil são frutíferas.
A floresta que nasceu de um sonho individual agora abriga 164 espécies da Mata Atlântica e 69 espécies de aves registradas por grupos de observadores. Segundo Hélio, a diferença de temperatura entre o parque e as ruas próximas pode chegar a 5 °C.
Além do impacto ambiental, o espaço também mudou o cotidiano da vizinhança: o que antes era uma área insegura virou ponto de encontro de famílias, escolas e caminhantes.
Em 2023, a Fundação SOS Mata Atlântica informou que o trabalho de “Seu Hélio”, como é conhecido, inspirou cerca de 300 grupos de plantadores de árvores em todo o país.
Aos 74 anos, ele segue firme — chegando a plantar até 60 mudas por dia nos períodos de chuva.
“Plante uma árvore, conviva com ela, converse com ela de vez em quando, e ela vai se tornar sua melhor amiga e confidente. Plante uma árvore. Isso é amor”, diz, sorrindo sob as copas que ele mesmo cultivou.
Fonte: G1