EUA acusam Brasil de trabalho forçado na pecuária, mas deixam carne bovina fora de nova tarifa

Os Estados Unidos acusaram o Brasil de permitir o uso de trabalho forçado na produção de gado e propuseram a aplicação de uma tarifa adicional de 12,5% a países que, segundo o governo norte-americano, falham em proibir a importação de produtos associados a esse tipo de prática. Apesar disso, a carne bovina foi incluída na lista de exceções e não deve ser atingida pela medida.

A proposta foi divulgada após uma investigação dos EUA apontar que 60 países, incluindo o Brasil, não adotariam mecanismos considerados suficientes para impedir a entrada de mercadorias ligadas ao trabalho forçado. Além da carne bovina, também ficaram de fora da taxação itens como aviões, suco de laranja, café, petróleo, terras raras e metais.

O relatório norte-americano menciona a pecuária brasileira como um dos setores associados ao problema, citando pesquisas e a lista TVPRA, usada pelos EUA para identificar produtos ligados a trabalho infantil ou forçado. O documento também cita a chamada “Lista Suja” brasileira e menciona dificuldades de rastreabilidade no setor, como o fenômeno da “lavagem de gado”.

Mesmo com as alegações, o próprio relatório indica que carnes congeladas ficarão isentas da nova tarifa. A China aparece como principal comprador da carne bovina brasileira e também como país citado na investigação.

Entidades do setor reagiram. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) confirmou que a carne está fora da nova taxação sugerida e não comentou as acusações. Já a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) foi procurada, mas não respondeu.

Os Estados Unidos são o segundo maior destino da carne bovina brasileira, atrás apenas da China. Grandes frigoríficos brasileiros como JBS e Marfrig — que controla a National Beef — têm forte presença no mercado norte-americano, enquanto JBS lidera a produção de carne nos EUA e a National Beef ocupa a quarta posição.

As empresas JBS, Cargill e Tyson Foods também são citadas em investigações nos EUA por possível concentração de mercado e influência nos preços da carne.

O relatório afirma ainda que as exportações brasileiras de carne bovina congelada para países investigados quase dobraram entre 2015 e 2025, enquanto as dos EUA cresceram 21% no mesmo período. Na China, a participação do Brasil teria subido de 38% para 53%, enquanto a dos EUA caiu de 6% para 2%.

Em relação aos preços, o documento aponta que a carne brasileira teria sido exportada à China em 2025 por média de US$ 2,40, abaixo dos US$ 4,20 da carne norte-americana.

O governo dos EUA sustenta que a presença de trabalho forçado na cadeia da pecuária brasileira poderia gerar vantagem competitiva indevida e distorcer o comércio internacional. Já autoridades americanas também levantaram críticas à presença de empresas estrangeiras no setor, incluindo grandes processadores de carne com atuação global.

No Brasil, em abril, a chamada “lista suja” do trabalho análogo à escravidão foi atualizada e a criação de bovinos para corte apareceu entre os setores com mais registros, com 18 empregadores incluídos. No Pará, o Ministério Público do Trabalho chegou a pedir a condenação da JBS em ao menos R$ 118 milhões por irregularidades na cadeia produtiva — a empresa afirma que não foi notificada.

Em agosto, os EUA já haviam aplicado uma tarifa de 50% sobre diversos produtos brasileiros, incluindo carne, o que mantém o setor sob pressão nas relações comerciais entre os dois países.

Fonte: G1

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