Facção do Rio controla cidade turística da Paraíba à distância e infiltra crime na prefeitura, aponta investigação

A cidade de Cabedelo, no litoral da Paraíba, virou alvo de uma ampla investigação da Polícia Federal e do Ministério Público após indícios de que o Comando Vermelho passou a controlar áreas estratégicas do município diretamente do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, a mais de 2 mil quilômetros de distância.

Segundo as autoridades, o crime organizado montou um esquema de vigilância clandestina, infiltrou aliados em setores da prefeitura e passou a interferir até na rotina dos moradores e na escolha de lideranças comunitárias da cidade de pouco mais de 60 mil habitantes.

Mais de dez operações já foram realizadas para combater a atuação da facção em Cabedelo. Para investigadores, o município enfrenta um “colapso institucional”.

“ A sociedade fica refém, a sociedade perde sua liberdade, a sociedade passa a ser comandada por esse poder paralelo ”, afirmou o procurador-geral de Justiça do MP-PB, Leonardo Quintans.

Áudios e vídeos obtidos pela investigação mostram criminosos monitorando a cidade em tempo real através de pelo menos 30 câmeras clandestinas espalhadas por postes, árvores e imóveis. O sistema ficou conhecido pelos policiais como “home office do crime organizado”.

A investigação aponta que o comando das operações parte do traficante Flávio de Lima Monteiro, conhecido como Fatoka, atualmente foragido no Complexo do Alemão. Ex-integrante da facção Nova Okaida, ele fundou a Tropa do Amigão, braço do Comando Vermelho no Nordeste.

Fatoka acumula 13 mandados de prisão por tráfico, homicídios e organização criminosa. Em 2018, ele fugiu do Presídio de Segurança Máxima da Paraíba durante uma fuga em massa de 92 detentos. Após nova prisão, conseguiu liberdade monitorada em 2022, rompeu a tornozeleira eletrônica no mesmo dia e fugiu para o Rio de Janeiro.

Mesmo distante, segundo a PF, ele continua comandando ações criminosas em Cabedelo e João Pessoa. Áudios revelam planos de expansão territorial e ordens para ataques contra rivais.

Em áreas dominadas pela facção, pichações com referências ao Comando Vermelho e ao apelido de Fatoka marcam o território. Vídeos mostram homens armados circulando em bairros residenciais e efetuando disparos para o alto.

Moradores vivem sob medo constante. Em um dos episódios registrados, um morador mostrou o carro da esposa atingido por tiros e pediu proteção aos criminosos. A resposta atribuída a Fatoka foi direta: “Deixar de ser otário”.

As investigações também apontam infiltração do crime organizado na Prefeitura de Cabedelo. Segundo o MP e a PF, o esquema envolvia loteamento de cargos, funcionários fantasmas, “rachadinhas” e contratos suspeitos através da empresa Lemon Terceirização e Serviços Ltda.

O prejuízo estimado aos cofres públicos chega a R$ 270 milhões.

De acordo com os investigadores, a facção utilizava a empresa para empregar parentes e aliados na prefeitura e na Câmara Municipal. Parte dos salários seria desviada para financiar atividades criminosas.

Os últimos quatro prefeitos da cidade passaram a ser investigados. Leto Viana chegou a renunciar ao cargo enquanto estava preso. André Coutinho teve o mandato cassado. Edvaldo Neto foi afastado dias após ser eleito, e Vitor Hugo tornou-se inelegível. Todos negam envolvimento com organizações criminosas.

Enquanto isso, moradores convivem com abandono estrutural. Quadras esportivas, unidades de saúde e equipamentos públicos aparecem deteriorados ou parcialmente abandonados, segundo as investigações.

A empresa Lemon afirmou em nota que possui mais de 700 funcionários na cidade e declarou colaborar com as autoridades. A defesa de Fatoka sustenta que não existem provas que liguem o traficante aos fatos narrados.

Mesmo foragido, ele continua sendo apontado pela polícia como chefe do esquema criminoso que controla Cabedelo à distância.

Fonte: FANTÁSTICO

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