O estado de São Paulo registrou um recorde de feminicídios cometidos fora do ambiente doméstico no ano passado. Segundo levantamento com base em dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP), 109 mulheres foram assassinadas em ruas, comércios, locais de trabalho e até hospitais, o que representa mais de 40,3% do total de 270 casos.
A tendência também aparece no início deste ano: no primeiro bimestre, 24 dos 57 feminicídios ocorreram em espaços públicos. Apesar disso, a residência ainda concentra a maioria dos crimes, com média de seis em cada dez casos.
Entre os episódios recentes citados por especialistas estão crimes de grande repercussão, como o de Tainara Souza Santos, morta após ser atropelada e arrastada por um ex-ficante na capital, além de casos em Osasco e São Bernardo do Campo envolvendo ex-companheiros das vítimas.
Especialistas em violência de gênero alertam que, embora ainda não seja possível afirmar uma mudança estrutural definitiva, os números indicam um sinal de alerta sobre a expansão da violência para além do ambiente doméstico. O rompimento de relações afetivas é apontado como um dos momentos mais críticos, quando agressores passam a perseguir vítimas em diferentes espaços da rotina.
Pesquisadores também destacam fatores como a maior presença feminina no mercado de trabalho, o crescimento da violência digital e a atuação de grupos misóginos como elementos que podem contribuir para a escalada dos casos. Há ainda preocupação com possível subnotificação, já que nem todos os assassinatos de mulheres fora de contexto doméstico são classificados como feminicídio.
Para especialistas, o feminicídio em espaço público também reflete disputas de controle e poder, especialmente após o fim de relacionamentos, quando agressores não aceitam a autonomia das vítimas. Esse padrão pode levar à perseguição em locais como trabalho, rua e transporte público.
O debate inclui ainda a necessidade de políticas públicas mais amplas. Medidas protetivas são consideradas importantes, mas insuficientes sem fiscalização efetiva, apoio financeiro, acompanhamento psicossocial e integração entre órgãos de segurança.
O Governo de São Paulo afirma que tem ampliado a rede de proteção, com novas delegacias especializadas, salas de atendimento remoto, aplicativos de emergência, monitoramento de agressores e programas de acolhimento e capacitação, além de operações policiais e medidas de prevenção.
Fonte: G1