Quase cinco décadas após a Revolução Islâmica de 1979, o príncipe Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã, declarou que está disposto a liderar uma transição de poder no país. A movimentação ocorre em meio a novos bombardeios e à morte do aiatolá Ali Khamenei, mas analistas consideram improvável que a antiga monarquia retome o comando.
Logo após o início dos ataques no sábado (28), Pahlavi divulgou mensagem em persa afirmando que a ajuda prometida pelo presidente dos Estados Unidos ao povo iraniano havia chegado. Exilado desde os 18 anos, quando seu pai foi deposto, ele declarou que pretende retornar para garantir uma transição estável e reconstruir o país.
Especialistas avaliam, porém, que o principal apoio ao herdeiro da dinastia Pahlavi vem da diáspora iraniana. Dentro do Irã, o respaldo seria limitado e fragmentado. Para o historiador Filipe Figueiredo, a realidade interna é mais complexa do que o entusiasmo demonstrado por apoiadores no exterior.
O analista Paulo Hilu afirma que, embora a monarquia encontre simpatizantes em setores como comerciantes, Pahlavi não representa uma alternativa consolidada. Segundo ele, um eventual retorno sob influência ou apoio militar estrangeiro comprometeria sua legitimidade.
O passado da monarquia também pesa. Apesar da imagem de modernização e costumes ocidentalizados antes de 1979, o regime do xá foi marcado por repressão política, prisões e torturas conduzidas pela polícia secreta. A dinastia Pahlavi chegou ao poder por meio de um golpe militar há cerca de 100 anos e consolidou autoridade após a deposição de um primeiro-ministro que defendia a nacionalização do petróleo nos anos 1950.
A Revolução Islâmica uniu inicialmente grupos diversos — da esquerda a religiosos — e levou à proclamação da república islâmica, consolidada em 1982 sob o aiatolá Khomeini como líder supremo. O sistema político passou a concentrar o comando das Forças Armadas e das principais diretrizes estratégicas na figura do líder religioso, enquanto o presidente eleito tem poderes limitados.
Com a morte de Khomeini em 1989, Ali Khamenei assumiu como líder supremo e permaneceu no cargo até ser morto nos ataques deste sábado. Ao longo de décadas, seu governo foi marcado por confrontos com Estados Unidos e Israel e por repressão interna, especialmente contra mulheres e opositores.
A morte da jovem curda Mahsa Amini, em 2022, após ser espancada por se recusar a usar o véu, desencadeou protestos em massa e repressão violenta, com milhares de mortos. Para analistas, o histórico de divisões étnicas, religiosas e políticas torna incerto o futuro de um país com quase 100 milhões de habitantes.
Especialistas apontam que há setores da sociedade iraniana que defendem uma transição democrática e inclusiva, incluindo intelectuais e atores políticos que já atuaram dentro da própria estrutura da república islâmica. No entanto, a consolidação de um regime plural dependeria de uma mudança estrutural profunda e de um processo de transição efetivamente representativo.
Fonte: FANTÁSTICO