O caso do juiz aposentado José Eduardo Franco dos Reis, que utilizou por 45 anos o nome fictício Edward Albert Lancelot Dodd-Canterbury Caterham Wickfield, ganhou novos detalhes após a divulgação de trechos de seu depoimento à Corregedoria do Tribunal de Justiça de São Paulo. No relato, ele afirma que manteve a falsa identidade por décadas, mas sempre desejou retomar seu nome de origem.
A situação veio à tona em abril de 2025, quando o magistrado tentou renovar um RG e os sistemas identificaram duplicidade biométrica entre ele e um suposto cidadão britânico. O caso segue em tramitação judicial, com duas ações: uma sobre o uso do nome falso ao longo da carreira e outra por falsidade ideológica ao declarar residência na Inglaterra enquanto vivia em Minas Gerais. A defesa aguarda laudos que podem atenuar a pena e recusou acordo proposto pelo Ministério Público.
Em depoimento, José Eduardo atribuiu a mudança de identidade a uma “fixação pela Inglaterra” desde a infância. Segundo ele, o interesse por autores britânicos e pela cultura do país gerou um impulso psicológico que culminou na adoção de um nome estrangeiro ainda jovem. A virada ocorreu após uma fase de depressão, quando um conhecido chamado “Tio Pupo” teria intermediado a criação de novos documentos com identidade falsa.
A partir daí, o então “Edward” construiu toda a vida profissional: obteve documentos oficiais, concluiu os estudos, formou-se em Direito e foi aprovado em concurso público para magistratura. Mesmo assim, nunca revelou a verdade à família, que acreditava que ele seguia a vida normalmente como José Eduardo.
O magistrado relatou que, ao longo dos anos, a identidade falsa se tornou um peso, afetando sua saúde emocional. “Queria morrer como José”, afirmou. Ele contou que retomou documentos com o nome verdadeiro por questões sentimentais e pelo receio de que a família enfrentasse problemas legais após sua morte.
A revelação aos familiares ocorreu apenas recentemente, após a descoberta do caso. Segundo ele, a decisão também envolveu a transferência de bens às irmãs, para evitar complicações futuras. O juiz negou ter buscado ajuda profissional ao longo dos anos, afirmando que não compreendia a situação como um transtorno.
O episódio levanta questionamentos sobre falhas nos sistemas de controle documental e sobre como uma identidade falsa pôde ser mantida por décadas dentro do serviço público, inclusive em um cargo de alta responsabilidade.
Fonte: OGLOBO