A patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic, cai no Brasil em 20 de março de 2026. Mesmo assim, especialistas afirmam que o esperado “Ozempic brasileiro” — versões produzidas por laboratórios nacionais — não deve chegar imediatamente às farmácias nem provocar uma grande queda de preços no curto prazo.
O principal motivo é que a produção do medicamento depende de aprovações regulatórias, investimentos industriais elevados e de um nível ainda limitado de concorrência no início. Enquanto isso, a farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk, criadora do Ozempic, prepara estratégias para manter sua força no mercado brasileiro, considerado o oitavo mais importante para a empresa no mundo.
Entre os planos da companhia está a produção das canetas no Brasil. A empresa já investe na ampliação de uma fábrica em Montes Claros (MG), com aporte de R$ 6,4 bilhões, para produzir medicamentos dessa classe no país.
Aprovação da Anvisa pode atrasar lançamento
O primeiro obstáculo para o chamado “Ozempic brasileiro” é a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Atualmente, 14 pedidos de produção de semaglutida estão em análise.
A agência pretende liberar no máximo três registros por semestre, o que pode prolongar o processo até 2028.
Laboratórios como a EMS, maior farmacêutica do país, afirmam que suas canetas só devem chegar ao mercado cerca de três meses após a aprovação regulatória. A previsão mais otimista aponta para vendas apenas no segundo semestre de 2026, com estimativas de lançamento em agosto.
Desconto inicial pode ser pequeno
Mesmo quando as versões nacionais chegarem ao mercado, a redução de preço pode ser limitada.
Isso ocorre porque a maioria dos medicamentos solicitados à Anvisa não será classificada como genérico, mas como similar. A diferença é que os genéricos precisam ser ao menos 35% mais baratos que o medicamento original, enquanto os similares exigem desconto mínimo de cerca de 20%.
Hoje, o Ozempic tem preço de tabela de cerca de R$ 1.299,70. Com essa regra, versões similares poderiam chegar ao mercado por aproximadamente R$ 1.039.
Analistas do Itaú BBA estimam que, inicialmente, os preços podem cair menos de 30%. Uma redução mais significativa, próxima de 50%, só deve ocorrer ao longo dos próximos cinco anos, conforme a concorrência aumente.
Produção exige investimento bilionário
Outro fator que dificulta a queda rápida dos preços é o alto custo de produção das canetas injetáveis.
Diferentemente de comprimidos ou cápsulas, esses medicamentos exigem fábricas altamente especializadas, com rigorosos controles ambientais, microbiológicos e de esterilidade. Além disso, o transporte precisa ser feito sob refrigeração.
A EMS, por exemplo, investiu cerca de R$ 1,2 bilhão em sua planta industrial em Hortolândia (SP). Poucos laboratórios brasileiros possuem estrutura adequada para fabricar esse tipo de medicamento.
Concorrência limitada no início
Embora várias farmacêuticas brasileiras tenham demonstrado interesse no mercado da semaglutida, poucas têm capacidade para produzir o medicamento de forma independente.
Empresas como Aché, Hypera e Cimed avaliam parcerias com fabricantes estrangeiros, principalmente da Ásia, para importar o produto ou terceirizar a produção.
Essas estratégias, no entanto, envolvem custos adicionais e impostos de importação, o que também pode reduzir a competitividade dos preços.
Novos remédios já pressionam o mercado
Antes mesmo da queda da patente do Ozempic, o mercado já enfrenta forte concorrência de novos medicamentos.
O principal deles é o Mounjaro, da farmacêutica americana Eli Lilly, cujo princípio ativo é a tirzepatida. Apenas em janeiro, o medicamento gerou cerca de R$ 850 milhões em vendas no Brasil — quase o dobro do faturamento combinado dos produtos à base de semaglutida da Novo Nordisk.
Novos tratamentos ainda mais potentes estão em desenvolvimento. Um deles é a retatrutida, também da Eli Lilly, que pode reduzir até 25% do peso corporal e tem lançamento previsto para o Brasil em 2027.
Além disso, comprimidos como o Rybelsus — versão oral da semaglutida — já oferecem alternativa mais barata, custando cerca de R$ 565.
Mercado cresce rapidamente no Brasil
Apesar dos desafios, o mercado de medicamentos para perda de peso continua em forte expansão.
Segundo dados da consultoria Close-Up, as vendas dessas canetas dobraram no Brasil no último ano e movimentaram cerca de R$ 12 bilhões. A previsão do Itaú BBA é que o setor alcance faturamento de R$ 24,6 bilhões em 2026 e ultrapasse R$ 50 bilhões até 2030.
Esse crescimento é impulsionado tanto pelo aumento da obesidade quanto pela demanda estética e pelo potencial de uso dos medicamentos no tratamento de outras doenças, como problemas cardiovasculares.
Fonte: G1