Prefeitura de Diadema compra drone de R$ 365 mil sem licitação para atirar gás lacrimogêneo em bailes funks; oposição critica

por Redação

A Prefeitura de Diadema, na Grande São Paulo, comprou, sem licitação, por R$ 365 mil um drone que atira bombas de gás lacrimogêneo para ser usado pela Guarda Civil Metropolitana (GCM) na repressão de bailes funks. A medida gerou críticas da oposição.

Na cidade, o combate aos “pancadões”, como são chamadas essas festas que varam as madrugadas nas periferias, virou política municipal da atual gestão, que espalhou outdoors falando em “tolerância zero aos pancadões”.

A aquisição do drone da empresa Condor S/A Indústria Química consta do site da Transparência da Prefeitura de Diadema, no valor total de R$ 365.313,60.

A prefeitura afirma que a compra do drone faz parte de uma política mais ampla de segurança pública e argumenta que houve dispensa de licitação porque o equipamento tem uma tecnologia que é fornecida por apenas uma empresa no Brasil. (Leia mais abaixo.)

Vereadores adversários do prefeito Taka Yamauchi (MDB), no entanto, afirmam que a administração municipal adquiriu o equipamento sem fazer pesquisa de mercado ou levar em conta as prioridades da cidade, além de desconsiderar o tumulto que o equipamento por causar em grandes aglomerações.

Na avaliação dela, “esse tipo de equipamento pode causar tumulto e corre-corre, semelhante ao que aconteceu em Paraisópolis, além de ser uma forma de criminalizar o lazer popular”.

? O “Massacre de Paraisópolis”, como ficou conhecido, aconteceu em 2019, quando nove jovens que participavam de um baile funk morreram durante uma ação policial da PM.

Eles foram encurralados em um beco da comunidade e morreram por asfixia e politraumatismo, após uma dispersão trágica com uso de bombas de gás na comunidade. Ao menos 13 policiais militares são alvo de uma ação na justiça por responsabilização pelos crimes.

Para a vereadora, a compra do drone “é um absurdo”.

“Nossa cidade é uma periférica, com inúmeras prioridades, com uma periferia enorme e que não pode se dar ao luxo de gastar tanto dinheiro com um equipamento que é, sobretudo, desumano e perigoso para conter esse tipo de multidão, formada por adolescentes e jovens que não estão ali praticando crimes”.

Programa de Segurança Pública
A gestão municipal, no entanto, diz que o combate aos “pancadões” é feito dentro de um programa de Segurança Pública chamado “Diadema Segura”, que inclui outras ações prioritárias.

A prefeitura acrescentou ainda que “a aquisição de um drone com tecnologia para lançamento de armamentos não letais é mais uma das ferramentas que fazem parte do programa Diadema Segura, que está promovendo uma reestruturação completa da segurança pública em Diadema”.

O principal objetivo do equipamento, afirma, “é oferecer uma visão estratégica aérea das aglomerações, permitindo uma atuação planejada, segura e eficaz, reduzindo riscos para os agentes de segurança e para a população”.

“É importante destacar que se trata de um equipamento não letal e voltado exclusivamente para uso estratégico em operações de segurança. A aquisição foi realizada de forma direta, por se tratar de um equipamento exclusivo, com tecnologia embarcada fornecida por empresa única no Brasil”, completou.

A gestão Taka reconhece que o “combate aos pancadões é uma prioridade, e continuará sendo enfrentado com estratégia, inteligência e respeito à população que deseja apenas descansar e viver com dignidade”.

“A Prefeitura de Diadema tem atuado com firmeza no combate aos chamados pancadões, que há anos causam transtornos à população, especialmente em áreas residenciais. Além do barulho excessivo e do desrespeito às regras de convivência, essas aglomerações frequentemente estão associadas à comercialização de produtos ilícitos, consumo de drogas e outras práticas que colocam em risco a segurança dos moradores”.

Além do drone, a Prefeitura de Diadema diz que já implementou ou está em fase de implantação as seguintes medidas:

Criação do Centro Integrado de Segurança Pública (CISP), que reúne as forças de segurança em tempo real;
Retorno da ROMU e criação da IOPE;
Reimplantação do Canil Municipal;
Ampliação da Ronda Escolar com novas viaturas;
Aquisição de novas motocicletas para reforço da ROTAM;
Utilização de um veículo de dispersão, batizado de Tsunami, que ampliará a capacidade de atuação da GCM;
Expansão da Muralha Digital, com câmeras, leitura automática de placas e reconhecimento facial;
Treinamentos conjuntos com a Polícia Militar e Polícia Civil;
Processo de contratação de 100 novos guardas municipais, em andamento;
Licitação para compra de armamentos não letais, prevista para conclusão ainda em 2025.
‘Pancadões’: problema antigo na cidade

A compra do drone que atira bombas de gás é mais um ingrediente na tensão entre parte das comunidades da periferia e a prefeitura da cidade.

Na gestão do ex-prefeito Lauro Michels Sobrinho (PV) – 2013 até 2021 – a cidade tinha adquirido um caminhão que atirava jatos d’água contra a multidão, que foi apelidado de “Tempestade”.

Mesmo diante de muita reclamação e crítica nas campanhas eleitorais, o caminhão foi usado várias vezes, sem registro de mortes ou feridos.

Já na final da gestão Michels, o caminhão foi encostado por problemas de manutenção que não foram resolvidos na gestão do petista José de Filippi Júnior (PT).

O resultado é que o caminhão não tem mais condições de uso e a gestão atual do prefeito Taka Yamauchi afirma que ele vai para leilão de sucata, após anos parado no pátio municipal.

Nesse período, os pancadões da cidade também não diminuíram. Pelo contrário, cresceram após a pandemia e reúnem cada vez mais moradores das periferias.

Com o crescimento dos bailes, também avançou o número de reclamações da população que tem que conviver ocm uma multidão na porta de casa madrugadas inteiras, até o dia seguinte de manhã.

Desde o início da gestão Taka, a GCM de Diadema tem feito operações constantes para combater os pancadões, registrando várias cenas de confronto entre GCMs e participantes dos bailes.

No início de junho, a atual gestão decidiu demolir vários comércios na comunidade do Pombal, sob a justificativa que eles abasteciam os bailes e ajudavam a acobertar atividades fora da lei.

Segundo a vereadora Patrícia Ferreira (PT), a demolição dos imóveis, a compra do novo drone e os recentes confrontos fazem parte de uma “política autoritária”, “que aposta muito mais no confronto do que no diálogo”.

“O governo do Taka enxerga a população jovem como inimiga, porque é uma gestão autoritária e militarizada, que aposta muito mais no confronto do que no diálogo. Não é criminalizando que vai resolver o problema”, afirmou.

O prefeito Taka (MDB) respondeu às críticas da vereadora dizendo que zerou o número de bailes na cidade no último mês e que está trabalhando com “planejamento, inteligência e resultados”.

Para ele, a oposição tenta politizar a situação.

“Lamento profundamente que alguns vereadores estejam tentando politizar uma ação séria de segurança pública. O drone adquirido é uma ferramenta estratégica, com tecnologia não letal, usada exclusivamente para garantir a segurança da população e dos próprios agentes”, declarou o prefeito do MDB.

“A Prefeitura tem muitas prioridades, sim. Segurança é uma delas — e quem mora em Diadema sabe disso. Seguiremos firmes, com responsabilidade, para garantir que nossa cidade seja um lugar cada vez mais seguro e digno para se viver”, completou.

Fonte: G1

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