‘Sicário’: quem era o operador ligado a fraudes e ameaças investigado no caso do Banco Master

por Redação

Apontado pela polícia como um operador com histórico de ameaças, fraudes financeiras e intimidação de adversários, Luiz Phillipi Mourão — conhecido pelo apelido “Sicário” — estava no centro de investigações que envolvem supostas irregularidades bilionárias relacionadas ao Banco Master.

Mourão foi preso na operação Compliance Zero, mas morreu após tentar suicídio dentro da cela da Polícia Federal em Belo Horizonte, enquanto aguardava audiência de custódia.

Segundo as autoridades, ele já era conhecido da polícia havia mais de duas décadas. Apesar do apelido que remete a matador de aluguel, Mourão nunca respondeu formalmente por homicídio. Ainda assim, acumulava registros por crimes como estelionato, receptação, uso de documento falso e ameaça. Em alguns desses casos chegou a ser preso, mas não houve condenações.

Em 2021, o Ministério Público de Minas Gerais denunciou Mourão e outras dez pessoas por participação em um esquema de fraude financeira que teria prejudicado milhares de investidores. De acordo com a promotora de Justiça Janaina de Andrade Dauro, o grupo anunciava investimentos com promessas de retornos extraordinários.

Segundo ela, os denunciados praticavam crimes contra a economia popular ao oferecer investimentos com promessa de lucros exorbitantes, além de operar um esquema caracterizado como pirâmide financeira.

Durante as investigações, a Polícia Militar de Minas Gerais analisou o conteúdo de um celular atribuído a Mourão. Em mensagens trocadas com um dos denunciados, os dois discutem valores ligados a pedras preciosas, como brilhantes e rubis, em uma conversa que termina com tom ameaçador.

Em outro episódio registrado pela polícia, um ex-sócio afirmou ter recebido uma ligação de ameaça após conversar com autoridades que investigavam crimes financeiros. Segundo o depoimento, Mourão teria dito que “a batata dele estava assando”.

As investigações também apontam uma relação próxima entre Mourão e o banqueiro Daniel Vorcaro. De acordo com a Polícia Federal, Vorcaro lideraria um grupo informal chamado de “A Turma”.

Nesse grupo, Mourão teria a função de monitorar adversários do banqueiro, constranger opositores e, em alguns casos, promover agressões físicas. Os investigadores também apontam tentativas de acesso a informações sigilosas em sistemas restritos.

Mensagens entre Mourão e Vorcaro foram citadas em decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça. Em uma delas, Vorcaro afirma que queria agredir o jornalista Lauro Jardim, colunista do jornal O Globo. Segundo o ministro, a intenção seria silenciar a imprensa que publicasse opiniões contrárias aos interesses do empresário.

Nas conversas, o banqueiro sugere colocar pessoas para seguir o jornalista e cogita simular um assalto para realizar a agressão.

Mourão foi preso no âmbito da operação Compliance Zero, que investiga fraudes bilionárias ligadas ao Banco Master. Horas depois da prisão, imagens de câmeras de segurança registraram o momento em que ele tentou se enforcar duas vezes dentro da cela da Polícia Federal.

Após ser socorrido, Mourão foi levado ao Hospital Estadual João XXIII. Dois dias depois, teve morte cerebral confirmada.

A Polícia Federal informou que abriu procedimento interno para apurar as circunstâncias do ocorrido, incluindo o tempo de resposta dos agentes responsáveis pela custódia.

O caso também revelou conexões políticas e institucionais ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro. Em 2024, ele participou de uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O empresário também ofereceu um voo de helicóptero ao senador Ciro Nogueira, presidente do PP, e ao presidente do União Brasil, Antônio Rueda, quando ambos estiveram em São Paulo para o Grande Prêmio de Fórmula 1. Nogueira afirmou que não utilizou o helicóptero, enquanto a assessoria de Rueda informou que ele não comentará o episódio.

Reportagens também apontam que Vorcaro teria enviado mensagens ao ministro do STF Alexandre de Moraes, inclusive no dia em que seria preso. O ministro afirma que não recebeu essas mensagens.

Antes das investigações relacionadas ao Banco Master, o Ministério Público de Minas Gerais já apurava um esquema financeiro envolvendo Mourão.

Ele foi sócio da empresa Maximus Digital Fomento Mercantil Ltda., que prometia rendimentos muito acima do mercado. Segundo a promotoria, os contratos eram pouco claros e não explicavam exatamente onde os valores seriam investidos.

Com o tempo, investidores passaram a relatar dificuldades para retirar o dinheiro aplicado. Advogados que representam vítimas afirmam que pessoas de diversas regiões do país foram atraídas para o esquema, incluindo investidores do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brasília e Belém do Pará.

Muitos dos participantes eram pessoas de baixa renda que chegaram a contrair empréstimos para aplicar na empresa.

De acordo com o Ministério Público, entre junho de 2018 e julho de 2021, Mourão movimentou cerca de R$ 28 milhões em contas relacionadas a empresas de fachada.

A investigação também aponta que o grupo teria obtido cerca de R$ 62 milhões em empréstimos bancários utilizando imóveis superavaliados como garantia. Propriedades avaliadas entre R$ 400 mil e R$ 600 mil teriam sido apresentadas com valores de até R$ 16 milhões ou R$ 19 milhões para viabilizar os financiamentos.

Segundo os investigadores, os imóveis pertenciam a uma empresa que teve como acionista Natália Vorcaro, irmã do banqueiro Daniel Vorcaro. Posteriormente, o banco responsável pelos empréstimos foi adquirido por Vorcaro e passou a se chamar Banco Master.

Os irmãos Vorcaro não foram denunciados na ação movida pelo Ministério Público de Minas Gerais. Procurada, a defesa de Natália Vorcaro não comentou o caso.

Durante uma audiência realizada no ano passado, na fase de instrução do processo sobre as fraudes financeiras, Mourão compareceu ao tribunal, mas optou por permanecer em silêncio.

O advogado do investigado afirmou que ainda aguardava acesso aos autos do processo e que não teve tempo de discutir as acusações com o cliente devido ao desfecho do caso.

Ainda não há previsão para o julgamento dos outros dez réus denunciados na ação.

Fonte: FANTÁSTICO

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