O governo federal afirmou que realizou mais de 30 contatos com autoridades dos Estados Unidos para tentar negociar as novas tarifas impostas a produtos brasileiros e rebateu as críticas de que não teria buscado diálogo antes da adoção das medidas. A decisão americana reacendeu uma disputa política sobre a responsabilidade pelo chamado “tarifaço”.
Enquanto a oposição atribui o episódio a falhas na condução das negociações e responsabiliza o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), integrantes do governo sustentam que a decisão dos Estados Unidos teve motivação “ideológica” e “política”.
O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) confirmou a adoção de uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, acompanhada de uma extensa lista de isenções. Produtos como petróleo, café e carne bovina ficaram de fora da cobrança. A medida passa a valer em 22 de julho.
A decisão é resultado de uma investigação comercial conduzida pelo USTR durante um ano, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, instrumento que permite ao governo americano investigar e responder a possíveis barreiras comerciais impostas por outros países.
De acordo com um levantamento da diplomacia brasileira, desde o anúncio do tarifaço original foram realizados mais de 30 contatos entre os dois governos. As tratativas ocorreram por telefone, videoconferências e reuniões presenciais, envolvendo autoridades nos níveis presidencial, ministerial e técnico.
Segundo o governo, também houve pelo menos 11 conversas com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, e com o representante de Comércio americano, Jamieson Greer.
A gestão federal afirma que todas as iniciativas para abrir negociações partiram do Brasil, em uma tentativa de encontrar uma solução para o impasse comercial. A informação foi divulgada como resposta às críticas de que o país teria deixado de negociar com o governo americano antes da implementação das tarifas.
Nos bastidores, a avaliação era de que o ambiente para um acordo havia melhorado após os encontros entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, primeiro na Malásia e depois em Washington. Entretanto, segundo a percepção do governo, o cenário mudou nas últimas semanas após a visita do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) aos Estados Unidos.
Marco Rubio mantém relações com a família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A aproximação teve início em 2018 e, no mês passado, o secretário recebeu os filhos do ex-presidente em território americano.
Após o anúncio das novas tarifas, o governo brasileiro divulgou uma nota classificando a decisão como um “marco lastimável” na relação entre Brasil e Estados Unidos e afirmou repudiar a medida. O presidente Lula declarou que pretende acionar a Lei da Reciprocidade.
Na nota, o governo argumenta que “não há justificativa para medidas unilaterais contra o nosso país” e destaca que, segundo estatísticas do próprio governo norte-americano, os Estados Unidos acumularam um superávit de US$ 424,5 bilhões em bens e serviços nas relações comerciais com o Brasil nos últimos 15 anos.
O comunicado também afirma que, ao longo do último ano, o governo brasileiro atuou de forma ininterrupta junto ao USTR para encerrar as investigações baseadas na Seção 301, apresentando evidências que, segundo a gestão federal, refutam as alegações de supostas práticas comerciais desleais adotadas pelo Brasil.
Fonte: G1