Quadrilhas de agiotas aterrorizam devedores com ameaças, exposição e juros de até 30% ao dia

por Redação

Mais de 300 pessoas da Região Metropolitana de Belo Horizonte denunciaram à Polícia Civil ameaças relacionadas à atuação de quadrilhas de agiotas. Segundo as investigações, os grupos impõem juros abusivos, promovem intimidações constantes e chegam a expor vítimas em redes sociais, espalhar cartazes pelos bairros e pichar imóveis para pressionar o pagamento das dívidas.

Em maio, uma operação da Polícia Civil na Grande BH resultou na prisão de 14 agiotas e na apreensão de mais de 60 veículos utilizados nas cobranças diárias. De acordo com a corporação, os grupos são formados por brasileiros, colombianos e venezuelanos.

O delegado regional de Contagem, Rodolpho Tadeu Machado, informou que parte dos investigados foi recrutada na Colômbia por integrantes de uma organização criminosa que já atuava em Minas Gerais. Conforme as apurações, os principais alvos são pequenos comerciantes e mulheres que vivem sozinhas, considerados mais vulneráveis pelos criminosos.

Vítimas relatam perseguição e ameaças

Uma das vítimas, que não teve a identidade divulgada, contou à TV Globo que tomou emprestados R$ 2 mil e teria de devolver R$ 5 mil. Outra afirmou que fez diversos empréstimos e atualmente utiliza praticamente toda a renda para quitar as dívidas.

“Meu dinheiro todo vai para eles, não sobra quase nada”, relatou.

Outra vítima revelou que chegou a dever entre R$ 40 mil e R$ 50 mil.

“Perdi minha dignidade, perdi minha paz. As mensagens eram constantes”, afirmou.

Segundo a Polícia Civil, além da cobrança de juros considerados ilegais, os devedores que atrasam os pagamentos passam a sofrer ameaças e perseguições.

Vídeos obtidos pela reportagem mostram suspeitos pichando muros, ameaçando arrombar cadeados, jogando motocicletas contra portões e divulgando mensagens intimidatórias.

Em uma das mensagens, os criminosos afirmam: “Se não paga a dívida, nós levamos o que tem pra pagar sua palavra”.

As investigações apontam que os agiotas realizam rondas de carro e motocicleta, aguardando as vítimas na porta de casa ou do trabalho.

Em alguns casos, os grupos divulgam fotografias e dados pessoais dos devedores. A Polícia Civil também registrou casos de vítimas que tiveram bens levados à força e até de uma mulher que apareceu em uma publicação com o cabelo raspado e uma arma apontada para a cabeça.

Objetivo é manter a vítima endividada

Para o delegado Raphael Souza Boechat, da 6ª Delegacia de Contagem, a estratégia dos grupos vai além da recuperação do dinheiro emprestado.

Segundo ele, o objetivo é manter os devedores presos ao ciclo da dívida.

“O objetivo principal que a gente detecta nesses grupos de agiotas não é necessariamente receber o valor integral, mas tornar a pessoa como um escravo da dívida”, afirmou.

As vítimas também relataram que o medo das represálias impede muitas pessoas de procurarem a polícia.

Uma delas contou que tentou tirar a própria vida em razão da pressão sofrida e informou que faz tratamento psicológico e utiliza medicação.

Outra afirmou que, mesmo enfrentando dificuldades financeiras para se alimentar, prioriza o pagamento aos cobradores.

“Eu fico até sem comer, mas eu pago”, declarou.

Fonte: G1

Leia também