Tenente-coronel preso por feminicídio diz que dependência financeira da esposa dificultava divórcio

O tenente-coronel Geraldo Neto, preso preventivamente sob suspeita de matar a esposa, Gisele Alves Santana, com um tiro na cabeça no apartamento do casal no Brás, região central de São Paulo, afirmou em interrogatório à Polícia Civil que a dependência financeira da companheira era o principal obstáculo para a separação. Ele também se tornou réu por feminicídio e fraude processual.

Segundo o depoimento, ambos manifestavam o desejo de se divorciar, mas Gisele teria relatado, ainda em novembro, não ter condições de se manter sozinha e sustentar a filha. Geraldo afirmou que a renda da esposa estava comprometida por empréstimos consignados e bancários, feitos para construção de uma casa para os pais e para custear procedimentos estéticos, como próteses de silicone, rinoplastia e bichectomia. Após descontos, restariam a ela menos de R$ 1 mil mensais.

O militar declarou que transferia voluntariamente entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil por mês para a conta da esposa, além de arcar com despesas domésticas que, segundo ele, chegavam a cerca de R$ 10 mil. Também afirmou ter buscado alternativas para garantir autonomia financeira à companheira, incluindo tentativa de conseguir uma vaga para ela na assessoria da Polícia Militar no Tribunal de Justiça, com adicional de aproximadamente R$ 5 mil.

De acordo com o relato, a vaga teria sido confirmada em janeiro, com previsão de início em 2 de março, após o carnaval. O plano, segundo ele, era que a nova renda, estimada em cerca de R$ 6 mil, possibilitasse a Gisele alugar um imóvel e viver de forma independente com a filha.

O tenente-coronel também descreveu o dia anterior à morte da esposa. Ele afirmou que ambos foram à academia em horários distintos e que, ao retornar, Gisele permaneceu trancada na suíte com a filha. À noite, os dois teriam conversado por cerca de duas horas sobre o relacionamento e os planos de separação. Segundo o depoimento, decidiram adiar a decisão definitiva para o dia seguinte.

Apesar da versão apresentada pelo investigado, o Ministério Público sustenta que laudos periciais, reprodução simulada e mensagens indicam que o oficial segurou a cabeça da vítima e efetuou o disparo, afastando a hipótese de suicídio. A acusação também aponta que ele teria manipulado a cena do crime para simular que a soldado teria tirado a própria vida, o que fundamenta a imputação de fraude processual.

Imagens de câmeras corporais de policiais militares mostram momentos de tensão no local, com divergências entre o protocolo de preservação da cena e a autoridade hierárquica do oficial. Segundo a investigação, ele insistiu em entrar no banheiro, tomar banho e circular pelo apartamento, condutas que levantaram suspeitas e enfraqueceram a versão de suicídio.

Como o feminicídio é considerado crime doloso contra a vida, o caso deve ser julgado pela Justiça comum, possivelmente pelo Tribunal do Júri. O Ministério Público pediu que, em caso de condenação, seja fixada indenização mínima de R$ 100 mil aos familiares da vítima.

A defesa nega o crime, questiona a competência da Justiça Militar e afirma que o oficial tem colaborado com as investigações. O Superior Tribunal de Justiça negou pedido de liberdade apresentado pela defesa. Segundo a Secretaria da Segurança Pública, este é o primeiro caso desde 2015 de um oficial da Polícia Militar paulista preso por feminicídio.

Fonte: G1

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