A Polícia Federal (PF) informou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que encontrou indícios de que a Presidência da Câmara dos Deputados tinha conhecimento e deu aval às indicações de emendas parlamentares atribuídas ao ex-deputado Eduardo Cunha (Republicanos-MG).
Cunha é investigado por supostamente ter indicado ao menos 29 emendas parlamentares mesmo sem exercer mandato eletivo. No âmbito da investigação, o ministro do STF Flávio Dino determinou o bloqueio de mais de R$ 6,1 milhões em bens do ex-presidente da Câmara, que nega ser o responsável pelas indicações.
Segundo a PF, Eduardo Cunha utilizava servidores da Câmara dos Deputados para direcionar emendas de acordo com interesses políticos em Minas Gerais, estado pelo qual é pré-candidato a deputado federal.
A investigação aponta que Mariângela Fialek, assessora da Presidência da Câmara conhecida como Tuca, seria responsável por operacionalizar o direcionamento dos recursos. Ela foi alvo de uma operação da Polícia Federal em dezembro do ano passado.
Conforme o relatório, Tuca atuava no despacho de emendas parlamentares desde a gestão do então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), permanecendo na função durante a presidência de Hugo Motta (Republicanos-PB).
Em um dos trechos do documento, a PF afirma que “tudo indica que Tuca contava com pleno aval da presidência da Casa para promover os desvios de emendas” em favor de Eduardo Cunha.
Para os investigadores, os elementos reunidos demonstram um “altíssimo grau de promiscuidade na deliberação do chamado orçamento secreto”.
A Câmara dos Deputados foi procurada pelo Metrópoles para comentar as conclusões da investigação, mas não havia se manifestado até a última atualização da reportagem. O espaço permanece aberto para posicionamento.
A Polícia Federal também sustenta que as provas permitem concluir que Eduardo Cunha atuava como um agente privado com influência política equivalente ou até superior à de parlamentares em exercício, interferindo no direcionamento de recursos federais sem autorização institucional.
Segundo o relatório, esse cenário revela um “gravíssimo desvio de finalidade”, ao afirmar que emendas parlamentares destinadas a atender demandas de representantes eleitos teriam sido subordinadas a um esquema informal conduzido por alguém sem mandato e sem responsabilidade perante o eleitorado.
Relação com Hugo Motta
Nos bastidores da Câmara, Eduardo Cunha é considerado um dos principais aliados do atual presidente da Casa, Hugo Motta, e também do ex-presidente Arthur Lira.
Durante a gestão de Cunha na Presidência da Câmara, Hugo Motta ganhou projeção política ao assumir, por indicação de Leonardo Picciani, então filiado ao MDB, a presidência da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras.
A comissão contribuiu para o desgaste do governo da então presidente Dilma Rousseff (PT) e antecedeu o processo de impeachment, admitido pela Câmara em abril de 2016. Na ocasião, Hugo Motta votou favoravelmente à abertura do processo.
A reportagem também cita que parlamentares lembram a contratação de Dani Cunha (PL-RJ), filha de Eduardo Cunha e atualmente deputada federal, para prestar serviços de marketing político ao atual presidente da Câmara. À época, Hugo Motta afirmou que o pagamento foi realizado com recursos próprios.
Outro trecho da investigação aponta que a primeira conversa localizada entre Eduardo Cunha e Mariângela Fialek em um aplicativo de mensagens ocorreu em setembro de 2025.
Segundo a PF, o ex-deputado mencionou conversas com “Arthur” e “Hugo”, mas parte do diálogo foi apagada por Mariângela, impossibilitando a identificação do contexto completo.
Em uma das mensagens preservadas, Cunha escreveu:
“Tive ontem com Arthur. Hugo me ligou a noite. Enfim, tentando ajudar. Mas Arthur tem razão.”
Defesa de Eduardo Cunha
Em nota, Eduardo Cunha afirmou que as emendas investigadas foram “oficialmente apresentadas e indicadas por parlamentares, bancadas ou órgãos legitimados”.
A defesa negou que o ex-deputado tenha realizado as indicações e informou que recorrerá da decisão que bloqueou seus bens.
Os advogados afirmaram ainda que rejeitam “a tentativa de equiparar automaticamente a legítima interlocução política ao exercício clandestino de mandato parlamentar”.
Fonte: METRÓPOLES