Risco de fuga agrava situação de Bolsonaro, mas condição de saúde pode influenciar volta à prisão domiciliar, apontam juristas

Apesar das evidências de risco de fuga apresentadas pela Polícia Federal, juristas consultados avaliam que o fator determinante para um eventual retorno do ex-presidente Jair Bolsonaro ao regime domiciliar será o estado de saúde. A análise ocorre no contexto em que o ex-presidente admitiu ter danificado a tornozeleira eletrônica com uma ferramenta de solda, episódio que pressiona a defesa na tentativa de garantir o cumprimento da pena de 27 anos por tentativa de golpe em casa — pleito que vinha sendo articulado antes da nova prisão.

Bolsonaro estava em prisão domiciliar desde agosto, por descumprir medidas cautelares de outro inquérito. No sábado, o ministro Alexandre de Moraes converteu o regime em prisão preventiva, citando risco de fuga e violação do equipamento eletrônico. Agora, especialistas afirmam que futuras decisões dependerão principalmente da avaliação médica oficial.

Para o professor de Direito Penal Thiago Bottino, da FGV Direito Rio, a reincidência de descumprimentos prejudica a confiança do juiz, mas não elimina a possibilidade de um novo pedido de prisão domiciliar — desde que a necessidade de saúde seja comprovada. Ele destaca que o STF costuma autorizar o regime em casos nos quais o detento apresenta quadro clínico grave e incompatível com a permanência no sistema prisional.

O criminalista Fernando Hideo, doutor pela PUC-SP, concorda que a tentativa de romper a tornozeleira justifica a prisão preventiva, mas não impede que a saúde venha a ser determinante em decisões futuras. Para ele, a defesa precisará comprovar doença grave e demonstrar que o sistema prisional não oferece suporte médico adequado.

Especialistas apontam que uma perícia oficial, solicitada pelo ministro ou pela defesa, deve ser necessária para avaliar a real condição física e mental do ex-presidente. Até agora, os laudos apresentados ao STF são assinados por médicos particulares e relatam “confusão mental” após uso de medicamentos, o que teria motivado a violação da tornozeleira.

A criminalista Jacqueline Valles pondera que a danificação do equipamento fragiliza um requisito básico do regime domiciliar, mas admite que a alegação de confusão mental pode ser considerada caso haja comprovação psiquiátrica do episódio.

A defesa afirma que Bolsonaro teria sofrido “alucinações”, acreditando que o dispositivo continha uma “escuta”, e insiste que o uso da solda não visava retirar a tornozeleira. O pedido de reconsideração do regime domiciliar segue pendente.

Já o professor Daniel Raizman, da UFF, observa que o argumento exigirá elementos sólidos. Segundo ele, o magistrado precisará avaliar se o alegado quadro mental é compatível com o uso cuidadoso de uma ferramenta de solda em um equipamento preso ao corpo, sem provocar ferimentos.

Fonte: OGLOBO

Notícias Relacionadas

Vorcaro bancou mais de 90% de filme sobre Bolsonaro e prisão abalou produção

Nunes Marques será relator de pedido de anulação da condenação de Bolsonaro na trama golpista

PMs são mordidos por cão caramelo de Bolsonaro durante guarda de prisão domiciliar